O recurso patético ao proparoxítono humorístico ou sarcástico ou satírico

O recurso patético ao proparoxítono humorístico ou sarcástico ou satírico

segunda-feira, 26 de março de 2012

run kika run

Das horas passadas, do tempo que voa, das fotos guardadas, do sono adiado, do sorriso embutido... Muita pressa, muita alma, muita vida, e o mundo é uma ilha - a vida é doce, depressa, depressa demais. Não há tempo de revisões, é tudo esboçado e vivido, simultaneamente. Um clichê de esperança. Agradeço a quem? A mim? A Deus? À minha família perfeita? Agradeço a tudo que respira, a tudo que vive - vivo em função disso. Agradeço ao inteligível. Pude engavetar as idéias. Agradeço à metafísica das interrogações. Pude concluir sem etapas. Feliz, feliz, feliz. Ando em passos largos a maratona dos meus sonhos - sou ponto e vírgula. Somente.

domingo, 25 de março de 2012

body, love and soul

"Você nasceu no lar que precisava, vestiu o corpo físico que merecia, mora onde melhor Deus te proporcionou, de acordo com suas posses, possui os recursos financeiros coerentes com suas necessidades. Nem mais, nem menos, mas o justo para as tuas lutas terrenas, seu ambiente de trabalho é o que você elegeu espontaneamente para a sua realização, teus parentes e amigos são as almas que você mesmo atraiu, com a sua afinidade.  Portanto, seu destino está constantemente sob seu controle. Você escolhe, recolhe, elege, atrai, busca, expulsa, modifica tudo aquilo que te rodeia a existência. Seus pensamentos e vontades são a chave de seus atos e atitude... São as fontes de atração e repulsão na sua jornada vivência. Não reclame nem se faça de vítima. Antes de tudo, analise e observe. A mudança está em suas mãos. Reprograme sua meta, busque o bem e viverá melhor."

quarta-feira, 7 de março de 2012

bleu

O segredo de tudo, o mistério maior, a razão do alento, se por acaso o doutor não lhe recomenda o tango argentino e se a você, como a mim, não convém a estupidez do ilícito, está em entupir-se de arte, alimentar-se de arte, nutrir-se de arte, deixar-se levar pelas partes e sequências, vogais e cores, deixando que penetrem os timbres, levando-se pelos tons entre acordes, na força do tempo e das vozes.

Doses antes das refeições, antes de dormir, antes de pisar fora da cama, antes de pensar em pensar, antes das vírgulas... e, alimentando-se de nãos, convém aumentar a porção, porque não há tempo a perder, e porque a arte cura a loucura, analgésico da dor de viés, dos ossos dos braços que batem incansavelmente pelas beiradas das portas. Cura a fome, cura a angústia e também a cólera de não sentir-se preenchido. Cicatriza a invisibilidade dos que se sentem sozinhos na multidão. A quina da parede no meu cotovelo. Os choques que necessitam de cor. O vazio. O silêncio.

A arte faz como brinde as letras, os versos, a minha Filosofia, a minha verborragia que, criteriosamente, retiro das prateleiras e trago para dentro de casa, afim de amortecer soluços e saudade das encarnações passadas que mais soam como o ontem. Vejo como o tempo passa.

A arte reinventa. Refecunda. Germina o refazer. Na música, na dúvida, na polissemia e na cor, em poesia ou em prosa, em pensamento ou empiria, a arte me cortou a fatia de adeus, a falta de rima, o excesso de agoras. A arte alimentou meu gosto de morango na boca.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Eleanor Rigby

Minha preferida. A obra que envolve os arquétipos de solidão, do vai-e-vem dos dias, dos encontros dos que olham e não enxergam. Daqueles que se encontram para enterrarem uns aos outros, mas que não estão interligados verdadeiramente. Da retórica vazia de significado, das lembranças arquivadas pela metade. Dos que se observam para julgarem todos os que se contrapõem, mas sem lucro e sem crescimento; usam-se e prosseguem nas trilhas individuais. Falam para ninguém ouvir. E no fim, e tão somente no fim, apenas enterram uns aos outros. Atrás da cortina de mil pessoas há solidão em cada uma delas.

complexodeboneca

voltei ao nomezinho do meu primeiro bloguito, idoso, pioneiro, precursor da verborragia até os tempos atuais, rá
(pegadinha do malandro) 

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Quiet is the new loud

Ninguém está imune à pele da hipocrisia, nenhum se salva de provar desse amargo, ora veneno, ora remédio. O amargo que trava a garganta, que entorpece, que desnorteia, que derruba pelas beiradas. Regurgitamos o incompleto do entre-ser. Somos herança de nós mesmos, alimentados pelas próprias vivências, fadados à autofagia da alma, no fim do percurso. Muitos se esquecem disso, da consequência do sim e do não na porta de saída, vomitando o achar e o não-ligar como verbos pioneiriços. É tudo corrida vertiginosa, fonemas cuspidos antes de serem vocábulos, dizeres lançados antes mesmo de serem medidos. Tudo opinião e palavras jogadas ao vento. Sorrisos de pastilhas de hortelã. Somos escravos do momento, das emoções, da utópica razão pura tantas vezes subvertida em surtos de impulsividade, fardo inerente ao homem, esse do eterno "de repente, deu-se", um jogar-se no precipício, o precipitar-se e agir conforme a música, delineando a dança. Na digestão de tudo, a certeza de que na próxima vez não se repetirá o gesto ou o substantivo, estancará em si mesmo o vício do caminho mais fácil, o vício de manterem-se os vícios, acomodados no adiamento das nossas perfeições. Aprende-se. Finge-se. Sobrevive-se. Abastecemos a munição da máscara inquebrável. E lapidamos com a matéria-prima da cíclica hipocrisia. É a culpa e a solução, eterno vínculo dos que ainda evoluem, dos que não estão prontos. E, para que haja equilíbrio, purificamos a face com a felicidade honesta de estampas florais. Sete meses que soaram como anos, é o que todo mundo me diz, e deparei-me no espelho com o ser tão mais feliz no momento em que quebrara a janela para pular do sétimo andar. Confesso que no primeiro segundo esperei o contrário, tal como todo mundo espera, tal como muitos esperaram. Mas ficamos todos nós a ver navios. Acertar nas escolhas e nos erros dos outros não tem preço. E eu encerro a noite com o sopro à vela de cheiros em cima da mesa, trago o Camel que não convém e expulso para longe a rolha do Cabernet, bem gelado, porque é tempo de fogos de artifício e de flores na janela, do lado de dentro da porta e em todos os cantos de fora. Brindando à âncora erguida e ao vasto mar à frente, tenho todos os dias programados de coisa alguma. Surpreendo-me a cada minuto. Cigana de sempre e de tudo, prost! Und gehen wir. O silêncio é o mais novo barulho, intertextualizado, intermusicalizado, interpelado. Estrelas nos olhos, asas nas costas, vento no rosto, sol nos cabelos, sapatinhos vermelhos e o Blues. A reação é conforme a ação.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

luftschloss

Meu luftschloss pelo ar ficou, subiu às nuvens e nunca mais foi visto, e tudo aqui embaixo tornou-se tão pequeno quanto aquilo que em mim não vive. A distância nada mais é do que amiga, leva para longe tudo o que pedimos em oração - livrai-me de todo o mal, amém. Reinamos nossas vidas, ora como mestres, ora como o maior dos aprendizes. O esquecimento escolhe as lacunas para então se firmar, mesmo que não precise apagar as lembranças. Tudo perfeitamente acontece.

Abri a janela, permiti que atravessasse o vento mais forte da temporada. Levou papéis, cartas, flores, poeiras, levou os discos e deixou espaço nas gavetas. Deixou tudo de concreto no mesmo lugar. Brindei. E o nosso segredo ali está, nem dentro, nem fora. Está em tudo. Se vem à tona, não ligo. 

O chão se abriu, bem diante dos meus olhos. Abriram-se também o tempo, mestre dos por quês, as horas, mucamas da angústia, os minutos, inimigos da consternação. Cegueira, mudez. Nua de armadura. Composta por não-quereres. Ouço trovões, mas não chove. Chove e, quando de fato chove, faz silêncio. Vejo paradoxos refletidos. Barulho no abismo, ecos no silêncio. Sinestesia. Tudo branco. Tudo azul. Joguei-me no mar. Flutuei, acordei, ancorei em hiato. 

domingo, 8 de janeiro de 2012

we made our clouds

Antes que me ultrapassem os cientistas e pensadores desse espaço, de onde vem esses desenhos das nuvens que tanto se encaixam em meus planos? Que forma tem a minha completude senão aquela que enxergo através das altas massas no tecido azul acima da minha cabeça? 

Tendo forma, tem cor. E não demora muito para que lhe apropriem cheiro, voz, pensamento, vontades. Não tem nome porque em  tudo habita. Não tem limites, cabe no todo. 

Totalmente preenchida de vontades - Toda trabalhada na sinestesia e na admiração das novas etapas.
Frio na barriga e olhos bem fechados...

sábado, 31 de dezembro de 2011

Die Zukunft liegt vor uns

Conjugam-se a partir de então verbos de novo ciclo, de novas datas, de novos planos, de novidades e de concretizações. Sempre as portas se fecham para que adentremos novos espaços, e é certo que quando algo já se esvazia, é prova de que lá na frente vem outro copo cheio para brindarmos aos sonhos frescos. Grata demais por tudo o que passei, satisfeita por ter firmado os pés nas minhas convicções e por ter sorrido em cada segundo de aula-da-vida. Tô mais 'grandinha'..., e cada um de nós, e é disso que temos que lembrar na despedida de um ano já concluído. Feliiiizz ano novo!!

-


"Além da Terra, além do Céu,
no trampolim do sem-fim das estrelas,
no rastro dos astros,
na magnólia das nebulosas.
Além, muito além do sistema solar,
até onde alcançam o pensamento e o coração,
vamos!
vamos conjugar
o verbo fundamental essencial,
o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempreamar,
o verbo pluriamar,
razão de ser e de viver."

[Carlos Drummond em: O amor natural]

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

drei, zwei, eins, los


Um braço aberto em cada hemisfério, cada pé firmando terreno vasto - malas prontas desde antes de nascer, restando só engolir a saliva e o fôlego, mas esses tanto se demoram quanto a minha história encerrada. As palavras buscando predicado em locuções adjetivas, verbais, prepositivas, e por aí vai - 3, 2, 1, los, tá na hora de virar a esquina de mais uma coisinha ali, was kann ich tun?

Muito amarguinho doce pro meu paladar.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

demasiado humano

Com Parmênides e Heráclito metaforizo em rio meu percurso desse ano, agradeço ao Chefinho pelas grandes braçadas até a margem, socializo satisfações perante os frutos colhidos na beira da vida e brindo ao vinho das uvas, pois plantei-as e delas desfrutei na hora certa. Here I go again, mais um ano como esse e eu viro #likeaboss, afinal quem não ama colecionar aprendizado dentro das próprias decisões? O Chefe foi muito generoso comigo, adivinhou todas as minhas vontades. Tudo nos é dado na hora certa, e quem disso ainda duvida?

Para a curiosidade que aqui e ali planta radar, feliz ano novo também! Que ao invés do tempo gasto ao vir - ainda - aqui e acolá você também aprenda um pouco dentro da sua vida, tendo certeza que nela há muita coisa passando para que isso aqui não tenha importância, pelo menos pra você, dica. Que você filtre esses sentimentos encardidos aí para só utilizar a parte boa, todo esse azedume nunca lhe levará a lugar algum. Sorria! Uma coisa mamãe me ensinou - estando feliz eu compartilho, não faço questão de dividir com ninguém. Alegria a gente doa, tristeza divide e subtrai, saudade a gente guarda. E tudo no seu lugar para o recomeço das árvores, logo mais é outono e aparecem as novidades!


aaaahhh...

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

hotinthecitytonight

Falta fôlego pra tudo novo.
É muita lua pra pouco ar.
Puleiro de passarinhos de tonalidade fúcsia
Arritmia.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

PAREM.

Peço licença para sair das margens, mas preciso falar. Mais clara do que serei, impossível. Chegarei ao limite da imbecilidade do querido diário, mas não vejo outra maneira, se meu silêncio é confuso. Por quê as pessoas pensam que eu sofri e sofro por decidir me separar?

Ao povo senso comum e machista, trago-lhe páginas de realismo - fiquei mais tranquila do que era, DÁ pra entender? Como toda pessoa de bem, tomei decisões que me cabiam para ser feliz, nada mais natural. Eu decido pela minha vida quando bem entender, de acordo com aquilo que é melhor pra mim. E é importantíssimo quando fazemos da maneira correta. ...E agradeço muito pelo que conquisto através disso. BLÉ bem grande para quem ACHA que sabe de mim. Me afastei das amizades doentias, das marionetes de duas faces, dos relacionamentos sufocantes, dos narcisismos que me ocultavam. 

Meu Deus, não passa pela cabeça de NINGUÉM que o que vivo hoje é o que eu precisava e pedia??? Se as coisas acontecem por caminhos tortos, mesmo que doam, bem vindo é o amadurecimento em cima disso, responsável sempre por felicidade, e não sofrimento. EU que tenho que estar sofrendo? Por favor,  não subestimem a própria inteligência e não desejem isso a mim, porque não existe! Ridículo eu ter que me expor dessa maneira para que me conheçam. Bando de idiota...

Tapinha no ombro e cabeça inclinada seguidos de "ow, você tá bem?" - enfiem nos seus cus, porque vocês estão se comportando como idiotas, prevendo a vida dos outros com suas demências novelísticas. O previsível existe, mas existem as exceções de toda regra. Seus tetos de vidro - quiçá de acrílico - precisam de polimento, dica. Os maridinhos e seus casos, as mulherzinhas e suas vidas de fachada, as solteirinhas olhudas, os pseudo-héteros que cultivam cupins nos devidos armários. Seus umbigos estão sujos, olhem para eles e assim todo o resto também ficará mais limpo...


Algumas pessoas não admitem que a outra seja feliz, elas simplesmente não querem isso. É o rancor que ingere-se como veneno, sabendo que esse mata  a si, e não a mim. Alguém tem que sofrer, tem que ter a grama apodrecida, menos verde que as suas, tem que doer, e muito... né? Tem mesmo? - não não não, garota, nem pense em ser plena, em sorrir, e por aí vai. Se você constrói asas e quer sair da gaiola, dão-lhe logo sonhos de cera, como a distorção do sonho de Ícaro. "ela não sorri, ela sofre. ela está fingindo." - disse a corna na janela de seu apartamento. Os outros não querem. É super previsível. Os outros, o inferno desses outros, o inferno propriamente que são. Os outros. Os outros. No ** dos outros, nunca: sempre. Segundo os outros, esses que jamais terão inteligência suficiente, visto que não usam o cérebro, "todos os relacionamentos devem terminar de forma dolorosa e inimigável, com recheio de traições e baixarias". Lamento dizer, mas nosso caso foi bem mais simples: muito carinho, mas pouco equilíbrio. Ser sombra de alguém nunca fará bem a ninguém. 

Vocês não me conhecem.

(Amigos que amo e família linda - ignorem isso, porque vocês podem tudo.)


domingo, 4 de dezembro de 2011

In dem die Zeiten sich bespiegeln

...Tem sabor de muitas coisas...
e cheiro de mais um pouco
cor de quase-dia
vontade de não passar tão cedo...
Melhor do que era.


Die Zukunft kommt zu mir, du nicht - liberdade de não estar em lugar algum, mas pisando chão firme da minha bolha.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

bilsbald

Hoje acordei em Dresden. Olhei pela janela e não reconheci a cidade, não reconheci as janelas dos outros apartamentos, não reconheci os mesmos rostos que encontro todos os dias no mesmo elevador, não reconheci as vozes ouvidas diariamente. Não me reconheci no espelho. Minha alma deixei em Bastei. E em Dresden eu fixo âncora em pensamentos, certa que deixei para trás o futuro que logo logo agarro nas mãos.


Amanheci em Dresden, tive certeza disso.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

vielendankemeinGott

Meu Deus, obrigada se por acaso eu tiver lágrimas para lavar o rosto cansado de um dia longo. Obrigada se, ao invés disso, porém não mais digno, vierem sorrisos para deixarem dormentes os lábios de infindável prosa de sobrevivência. Amém...

Die Zukunft liegt vor uns - medalhinha de ouro.

O resultado final de tudo nessa vida, quando bem aproveitada e quando compreendida, é GRATIDÃO pela força que papai do céu me deu, para subir tanto degrau difícil nessa vida em tão pouco tempo e para  olhar pra trás mais feliz do que eu era. Grata pela coragem infinita que adquiri para ter decidido romper ciclos que eu já não queria, por digna iniciativa, por me conformar que agora só há o meu bem, e por aí vai, e é muito presente para uma pessoa só, embora com cruz densa. Tenho muito orgulho de quem sou hoje, seja com rugas a mais ou não, porque ainda não as vejo, mas com cicatrizes do lado de dentro que acredite, são super sexy e über. Sempre com bom humor. Cada dia tem vindo com uma dificuldade diferente, e meu Deus, quantas são, e sobrevivi, respirando e andando, e agora é levantar os braços e aproveitar as novidades, lembrando sempre que as coisas más, mesmo que delas você fuja, estarão sempre em porta-retratos na sua memória, para o dia em que precisar de força e amadurecimento. Bebo a metade cheia do copo e respeito a vazia.


Status: Exausta! Precisando de 7 horas seguidas de sono.... ou de 2 horinhas de Dolcetto D'alba... Hehe.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

keine Zeit

As free as a bird,
Cigana do mesmo teto, turista da mesma rotina, gerente das próprias escolhas, tirana das vontades e ganas. dona do próprio nariz. clichê! Nada demais, tudo sutil. Kgs a menos, cabelos brancos a mais, relatórios a menos, sono a mais, lembranças de menos, borboletas estomacais demais, e aqui e acolá o destino me contacta com novidades muito, mas muito bem humoradas. 


Meu tempo é quando, não sendo longe. Ganhei de presente um presente [sem passado] e um futuro [sem âncora] - achou que eu diria sem futuro, né....

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

lições do psicomasoquismo alheio.

‎"Quem sabe o homem ame não apenas o bem-estar?
Quem sabe ele ame igualmente o sofrimento?
Quem sabe o sofrimento é para ele tão
vantajoso quanto o bem-estar?
O homem, às vezes, ama o sofrimento
de maneira terrível, apaixonada; isso é um fato.(...)
O sofrimento é a única causa da consciência".

[DOSTOIÉVSKI, Notas do subsolo (2008). p. 45-46.]

sábado, 29 de outubro de 2011

badlovestrangesmoke

A vida se reinicia em passos largos, as oportunidades me visitam à porta e eu cantarolo novas canções, ao passo que me anoiteço em lembranças daninhas. Tudo o que já me habita por dentro antes mesmo de eu pensar em jogar no ar. Lembranças boas que se fixaram, que não há como evitar, que não dá para extinguir. Tudo aquilo que o respeito evoca.

Os moinhos giram as pás, gira o mundo ao meu redor. Roda viva de socos no estômago, cheiro de hortelã, carinhos de uma mão pequenininha, livros de engrandecimento anti-inércia. Chega uma hora em que tiramos as rodinhas da bicicleta, soltamos as mãos dos pais, arrancamos a última pétala de bem-me-quer e seguimos com os próprios passos, seja aqui ou do outro lado do mundo.

Infinitas nuvens, como um rebanho no prado, tantos desenhos já não vejo e tantos outros agora percebo. Quantas folhas caíram em outono e que primavera me toma pouco a pouco...! As flores vieram. Mesmo na saudade do inverno, tão confortável.  Parnasianismo de revestrés, volta e meia, e quem sabe até uns tragos, não me desvencilho.

Na mira do canhão cada minuto conta. Não há tempo para pensar, embora seja esse todo o nó das boas escolhas. Pensando, tudo se encaixa... Cada novo ser emana em sua forma um novo recomeço. E eu conto com o espelho.! Saída da caverna, reconhecendo-me novamente. Hoje meus dias são conectados à sua despedida, minhas estações se definem com a sua saída, mas não abrumo minhas escolhas. E fico tranqüila que tudo se renove, e que bom que existe a amizade, e que bom que as coisas se transformam....

O homem é um animal preso à sua caixa de sentimentos. Segredo: descobri a chave.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

neues Parfüm

"É preciso SABER SENTIR, mas também como deixar de sentir, porque se a experiência é sublime pode tornar-se igualmente perigosa. Aprenda a encantar e a desencantar. Observe, estou lhe ensinando qualquer coisa de precioso: a mágica oposta ao 'abre-te, Sésamo'. Para que um sentimento perca o perfume e deixe de intoxicar-nos, nada há de melhor que expô-lo ao sol".

(Clarice Lispector, "A Bela e a Fera, p.46-47).

Ré mal sucedida numa rua sem saída

Não é poema, é dilema. Pára-choque amassado numa manhã de terça-feira. Tudo culpa do leite que acabou, da banana para a semana e do café de todo dia. Nem queria sair de casa, mas saí para a vida. E pimba. Se eu me tomasse pela superstição, diria piamente que olha, tá vendo, voltar no tempo não cabe a mais nada, que reviver o passado já não me soma e que a roupa velha já não me veste. Foi um sinal... E, veja só, nunca tive tanta pressa, nunca senti tanta saudade do que ainda não vivi, nunca corri tanto para longe da inércia. E eu, que sempre fui desobediente, obedeci. Sim senhor, viu? E chego a sentir remorso por não doer mais, por não amar mais, por não sentir falta, por deixar que o vento leve. Como eu fui obediente. Era tudo questão de costume, será? - mau costume, diga-se de passagem. Era só uma abstinência de conveniência. Acredito que sim. Uma ré nos sonhos, nos planos. Cansei dos retratos, já expulsei as ladainhas do coração. Quanta lucidez! Quanto novo sabor na boca! Em outra - em outra órbita. Sonhando acordada com outras coisas. Apressada para deixar meu nome no necessário. porque sou obediente. Quando me lembro que aquele tempo existe, é pelo vínculo que ainda nos resta. E foi lindo. Brindo com um irônico e mediano vinho chileno. Passou, vá, viveu-se. À ré, meus agradecimentos.



"a estrela cadente / me caiu ainda quente / na palma da mão...."
[Leminski]

domingo, 23 de outubro de 2011

O clichê do "tô em outra" - estrada...

"Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final. Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver. Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos. Não importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos que já se acabaram. As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas possam ir embora. Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se. Lembre-se de que houve uma época em que podia viver sem aquilo - nada é insubstituível, um hábito não é uma necessidade. Encerrando ciclos. Não por causa do orgulho, por incapacidade, ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida. Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira".

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A Saudade - quod me nutrit me destruit

Escrevo Saudade no papel para que ela deixe de ser sentimento e se torne apenas palavra. Uma palavra no papel só passa a ter peso quando a ela se compete um valor, e uma lembrança só pode ser digerida quando deixa de existir no plano da angústia. Saudade é um retrato na parede, é a lembrança das cores, dos cheiros. Saudade é a palavra que já não suporto, a inimiga das minhas razões, a madrasta da coerência. Aquela que pune por querer fazer o correto. 

Andar para frente é esquecer a porta de trás, é memorizar a paisagem que já passou. A janela nos mostra uma perspectiva apenas, mas ainda assim nos traz algo de novo. O tempo é mudo e tem pressa. Quando virei a esquina, já esqueci. Nada mais tem peso. A saudade acabou, logo ali - mentira, ela acabou comigo. Bem aqui. Novos sapatos para um novo chão. E não nego, não nego a saudade. Bis bald. No mais, meu filho me ancora com asas de cigana. Mudei de país. Agora em alma e frio na barriga, amanhã em corpo. Ir aonde o destino me quer.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Dasein

O último gole. O último trago. O último encontro. A última página. A última dose.

Leveza nas costas, leveza no olhar, leveza nas palavras. Leveza nas mãos. Medo. Ansiedade. Alívio. Desabafo. Suor. Sorriso. Missão cumprida. Penso que já fui, mas ainda estou aqui. Sinto medo, mas antes já havia me servido de coragem. Tendo feito o que tinha que ser feito, tendo sussurrado o que tinha que sussurrar, colho sementes de novas colheitas, amanhã é tão perto que, mesmo que demore a chegar, é meu de direito. É melhor correr o risco ao expressar o que sinto a calar e viver o de sempre. Sinto e não sinto pressa. Debaixo do tapete, encontrei  a chave, abri a porta – mereço mais. Não existe metade das coisas. Ninguém pode me cobrir de negro. Não aceito meio copo, meia palavra. Meio olhar, meia devoção. Não sou do tipo que é posta no ombro, cantarola sons de papagaio e finge não existir. Tenho sangue, tenho pele, tenho voz e tenho timbre. Não me apaguem o sol que já me é de direito...

Clichês. Olhar para trás e não se arrepender. Viver tudo de novo. Saber a hora certa de agir, de novo. Ter boas lembranças. Cultivar o carinho das coisas boas, do lado bom da coisa. Nada acontece por acaso. Aprendemos em tudo, com tudo. Ser sincera acima de qualquer medo. Se eu não for comigo e com os outros, como esperar que sejam em retribuição? Melhor dizer como se sente a guardar aflições por medo de apontar os defeitos dos outros. Triste de quem não aprende, triste de quem não dá o braço a torcer. O espelho é o melhor amigo do futuro bem vivido. 

Livre e recomposta, mas  ainda com cacos a catar, olho pra cima e vejo que o que foi feito é o correto, mereço mais, já disse. Fui sincera, pedi mais, mesmo que a garrafa já estivesse vazia. Dói, mas revigora. Falaria tudo de novo. Vazios são os outros. Não sou invisível e sim transparente, não sou de plástico, não sou de vento. Tenho reflexo no espelho. Dois olhos, uma boca, dois ouvidos, uma alma. Peço licença para existir. Basta de não ser vista. Mil idéias. Pouca existência para vivê-las, e para isso existe sempre alguém. E quando o “alguém” já habita a Babel da própria bolha, muda-se o disco e traçam-se novos horizontes. O amor demora a morrer, e na verdade ele nunca morre, se transforma, e a saudade ainda vai me procurar, vai insistir em ficar, sentar no sofá e me observar lentamente nos buracos de silêncio, mas o tempo sempre ajuda. Que comecem uma campanha de maturidade nos postos de saúde, tem gente precisando de umas gotinhas. Compreensão faz bem à saúde. Egocentrismo, além de doença, mata. Me mataram por dentro. Quase sumi.

Mas tô aqui.
Dói.

‎"Vamos, não chores. (...)
A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo erradomurmuraste um protesto tímido.
Mas, virão outros."


[Carlos Drummond de Andrade]

terça-feira, 4 de outubro de 2011

poserblasénolimetangereblablabla

SEM TEMPO AAAAAAAAAAAAAA
dasein
dasein
dasein
dasein
dasein
dasein


DA-SEIN
BOLERO
E
BLUES.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

"Temos a arte para não morrer da verdade."


"Toda a arte e toda a filosofia podem ser consideradas como remédios da vida, ajudantes do seu crescimento ou bálsamo dos combates: postulam sempre sofrimento e sofredores."



[Nietzsche]
[obra: minha preferida de Modigliani]

sábado, 17 de setembro de 2011

meus ombros já não suportam o mundo


Não me acho muito, mas me acho grande. Dou-me o direito de me evidenciar. Dou-me o direito de me defender, de não desbotar, de não desaparecer. Todos nós somos cegos dos outros, todos são cegos de mim. Mea culpa, culpa sua. Sou estátua que se move. Não sou nada, mas sou algo. Sou um mosaico de mal-conhecerem, um enigma a tudo o que não vem de dentro, aquela que enxergam, mas que ninguém vê. Assim somos todos, assim como a maioria, assim como você e ele. Somos cartas de um jogo da memória, muitas vezes organizadas em pares avulsos, e não em combinações iguais. O que sou e o que você vê de mim não são a mesma coisa. Ninguém me conhece. Mea culpa.

Sou sorriso de Monalisa. Sou borboletas na cabeça, pensamentos que não exponho, vontades e opiniões que calo até que alguém os faça à mesma medida, ou em proporção similar. Apenas concordo com a cabeça. Sorrio, quando não tenho o que fazer. Falo muito baixo e não consigo espaço.

Sou a boa bailarina para o açougueiro, a excelente aluna para o vigia, a mãe carinhosa para o dentista, a perfeita dona-de-casa para o professor, a amiga ideal para a estátua da praça. Sou sempre o velamento de um ser que nunca se revela, bla bla blá, sou sempre alguém à pessoa errada. Acordo existindo e erro de destinatário, bato sempre nas vistas erradas. Sou balela metafísica. Nunca a combinação correta. Não me deixo ser vista. Sou sempre a que não sucumbe ao desvelamento inteiriço, a que não sabe como andar até ao espelho, a que desconhece o reflexo e o cheiro. Sou a muda que muito tem a dizer, a que cala, mas que pensa, e muito. A que é, mas que não diz. Aquela que família, amigos e anônimos jamais conheceram, que absorvem e não penetram, a que jamais se complementa, a que deixa estar, a que respeita o silêncio que lhe oculta. A que dá o reflexo a quem não vê, não sei se por desastrada ou por acanhamento, sempre oculta nas interjeições e na complacência, no aham que não opina, na máscara do “e se”, no cacoete do “deixa pra lá”. A que enforca a própria garganta, mesmo sedenta de vomitar a essência. Clara como a água que não o é, cuspo um desabafo de 25 anos de vontade de ser o que quero e não consigo, ser aquilo além do visível, e juro ainda que sou mais e melhor, e enxerguem, estou aqui, e amigo, quero um copo e um trago, e meu Deus aqui dentro sou barulho e por fora sou vazio, e permita-me uma dose, e juro que existo, e o nome disso é frustração.

They'll send an S.O.S to you

Palavra e pensamento são criadores, precisamente por se instalarem como nascente. O perigo mora onde houver espaço.

Ao passear pela noite, vejo mil faces em diferentes cores. Vejo os mesmos autores e suas obras (as do verbo obrar, e não as do verbo criar). Vejo as mesmas retóricas vazias de significado. São todos personagens fictícios. Vejo maridinhos mimados traindo as suas grandes mulheres. Vejo garotas com complexos de Édipo mal resolvidos, e chego a jurar que não têm mãe nem pai, desejando os de compromisso e contradizendo a própria vontade de quererem algo fixo para si, brindando assim à contradição, a ignorância de si próprias. Vejo homens sem pudores, e até diria sem escrúpulos e sem culhões, desmerecendo o respeito que algumas enfim conquistam e desejando aquilo que não lhes é de direito. Usam como perfume - ou como ausência dele - o desrespeito. Vejo, também, pessoas aquém, semeadoras da discórdia, dos boatos e da malícia, porque a doença mental que é a mediocridade lhes tomou todas as outras prioridades na vida, e acredito que falta sexo nas suas rotinas, gastando o tempo para falar dos outros e para pescar maus comentários. São vespas bêbadas. Também vejo almas encalhadas nas próprias angústias em solidão, desesperadas em levarem para casa algo de mais interessante do que a própria existência, arquétipos empestados de complexos narcísicos, obcecados por se vangloriarem na adversidade refletida nos outros, jurando a inveja alheia e a cobiça de suas vidas medíocres, tão fedorentas debaixo do tapete. Vejo também aquele marido de liberdade enrustida que, no momento em que é solto, confessa o seu viver de aparências, e não conte a ninguém pelo amor de Deus, já mudei de idéia, tem a prole, e deixa eu voltar para casa para sorrir e calar, porque fui bem criado e honro minhas responsabilidades.

Garrafas, canudos e copos. DRINK ME, diria o rótulo. Beba-me. Obedece aquela alma de curiosidade e fraqueza. Em que mundo você vive, Alice? Não há mundo, não há chão, há vazio, na vida e nos pensamentos. Nada perdura. O clichê do efêmero com gelo e limão, ou não. Beba-me - e você cresce, você diminui, você some. Jamais permanecerá como era. Transforma-se. Muda à medida que molha a garganta, rega as idéias. Uma personagem que lhe afasta da verdadeira persona. Outra maneira de ser outra pessoa. Máscaras. Um vir-a-ser, uma mutação. Um sendo, enquanto durar a porção. Um ser aquilo que não é.

São cenas de um cotidiano corrupto, moribundo, mundano – o do mundo - , escarro dos bons, solitários à beira do abismo, em busca de álcool que limpe as feridas, que esterilize a agonia do fracasso. O que cheira a podre em perfumes caros. A ignorância em trajes de gala, autoconhecimento comprado em cigarreiras. A angústia anunciada. Pessoas e suas garrafas numa versão mais subterrânea de Message in a Bottle, com suas mensagens digeridas entre goles e gritos, quiçá pedidos de socorro, um “tirem-me daqui” que jamais é ouvido – há peso demais e a mensagem só afunda. Eixos mareados nas águas salgadas ou amargas do imperfeito, à espera de alguém que supere o abismo de abrir a rolha e traduzir uma alma. Uma babel das mesmas dores, do mesmo tédio, das mesmas rotinas, do velho museu de novas feridas. Eu? Você? Nós sobrevivemos.


[Schopenhauer diria: A vida oscila como um pêndulo entre a ansiedade e o tédio. Contanto que ele não generalize, eu acabo por concordar.]

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

a lot of keys and 6 hands.

The Weight Of My Words - Kings Of Convenience

There are very many things
I would like to say to you,
but i've lost my way
and I've lost my words.
There are very many places
I would like to go
but I can't find the key
to open my door.
The weight of my words-
you can't feel it anymore.
The weight of my words-
you can't feel it anymore.
There are very many ways
I would like to break the spell
you've cast upon me.
Because all the time
I sacrificed myself
to make you want me,
has made you haunt me.
The weight of my words-
you can't feel it anymore...

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Tempo bom, bom, bom, muito bom.

sábado, 27 de agosto de 2011

"ao meu jeito eu vou fazer..." - a sempre feliz.


A vida? A vida é uma pergunta, costumo dizer. A vida é contentamento. É a relação da alegria e dos seus contrários. A alegria não é negar a tristeza, a propósito. É saber que a tristeza existe e ainda assim fazer-se sentir. A alegria é a prova dos nove, já dizia Oswald de Andrade. É uma transformação metafísica, a superação que Nietzsche lembraria, a transformação da dor no prazer. É pura catarse. É suspiro. É a possibilidade de refletir em regozijo. A alegria é a felicidade como um tempo, e não uma constante. Há momentos, há o meu mundo – afirmação dos opostos, como já disse. É como sambar: chorar de alegria, sorrir de nostalgia, falou Noel Rosa. Uma pausa de mil compassos, (...) e nada mais nos braços, só esse amor, assim, descontraído - cantou Paulinho da Viola.

O fio de esperança fia-se no escrever. Esperança de não me esquecer.

Sou aquela que já não tem tempo pra mais nada. A cigarra que consegue ser formiga. Cronometra os minutos de arrumar a casa, antes da maratona de aulas e afazeres. Sou a que valoriza cada partícula de acontecimento do dia-a-dia, a partir de agora. Um gole d’água, compras no supermercado, aula de alemão, um filme na cama. O que for. Sou a única pessoa no mundo que só gosta de tomar banho no escuro, com música, a água bem quente. Sou a única pessoa no mundo que só faz reclamar de tudo, uma chata em potencial. Sou a única pessoa no mundo que se vicia MUITO em água com gás, gelo e limão, e o resto é resto, na medida do possível. Sou a única que tem o coração de geléia, sente rancor mas deseja o bem das pessoas. Sorrir não dói, fica a dica. Sou a única pessoa no mundo que, movida por um dicotômico e recente desvelamento, passa longe dos padrões de mulherzinha. A incompreendida. A que não é amélia. A que, se exausta, tem o marido que também varre, lava louça, lava banheiro, cozinha maravilhas, faz massagens. A que tem megalomania nas leituras. A que engole palavras. A que não fala alto. A que fala baixo, muito baixo. A que não consegue ser falsa. A que odeia retórica vazia de significado. A que arqueia muito as sobrancelhas, a que espreme os olhos porque os óculos não ficaram prontos, a que é sempre sisuda, a do sorriso de monalisa. A que critica. A cética. A que é sincera demais no que diz, dane-se. Aquela que é o que é, a que se decepciona por conhecer pessoas que preferem o clichê raso e pré-fabricado, hermeticamente igual. A que se deslumbra com as pessoas inquietantes nas excentricidades. A que não suporta a metade das coisas. A que quer tudo. A que adentra as entranhas. A que antipatiza a prepotência alheia. A que, narcisicamente, escreve besteiras.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

o moralista que tudo vê

‎"Minhas peças têm um moralismo agressivo. Nos meus textos, o desejo é triste, a volúpia é trágica e o crime é o próprio inferno. O espectador vai para casa apavorado com todos os seus pecados passados, presentes e futuros. Numa época em que a maioria se comporta sexualmente como vira-latas, eu transformo um simples beijo numa abjeção eterna.".

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"Manuel Bandeira chegou pra mim um dia, quando eu e meus personagens éramos odiados, e disse:' Nelson, por que você não faz uma peça em que os personagens sejam assim como todo mundo?' Eu respondi da forma mais singela: 'Mas meu caro Bandeira, meus personagens são como todo mundo.' Porque uma coisa é verdade: quem metia ou mete o pau no meu teatro está procedendo como um Narciso às avessas, cuspindo na própria imagem."

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“A ficção para ser purificadora precisa ser atroz. O personagem é vil para que não o sejamos. Ele realiza a miséria inconfessa de todos nós.”;

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....E esse é o moralista que nos cala antes mesmo de pensarmos em fazer o erro. Nelson Rodrigues, desvelado em uma ótima palestra com o fantástico Prof. Roberto Machado, esta noite. Volto para casa sentindo falta de óculos, mas a engolir toda e qualquer peça possível.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

claro e transparente como o sorriso que você julga me dar.


Um caminho muito complicado é aquele que tentamos traçar com pessoas que nos decepcionam, seja por um ato ou por um mal que dizem a nosso respeito. Essas pessoas deveriam saber que, nas suas tentativas de se fazerem vítimas nos julgamentos que sucedem a mágoa, o Homem certamente não é só aquilo que faz de si, mas também o “a partir da compreensão do outro”. Um ser-no-mundo. O Outro define e completa o ser. Basicamente, saiba que você não é apenas o que você julga e jura ser ou não ser, mas também o reflexo do outro, o "lado de fora", o espelho (pessoas), o que enxergam de você. O outro é o espelho que reflete o que eu sou. É aí que habita a dualidade da nossa existência, a lei da ação e da reação. Do fazer e de ter consequências. Do "ser algo para os outros" a partir de seu próprio comportamento. Usar máscaras não funciona, tampouco dizer que não é isso ou aquilo. Uma vez tendo agido errado, não há volta. Não existe "atrás do pano", não existe cortina, ou é, ou não é. Quem fala o que quer, mais cedo ou mais tarde ouvirá o que não quer (pelas costas, como uns, ou diretamente, como prefiro). Mesmo que eu lamente muito, mas muiiiiito isso.

Siga em frente.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

que sempre voem as nossas asas do saber e do ser.

"Que vai ser quando crescer?
Vivem perguntando em redor. Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível, ser? Dói? É bom? É triste?
Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?
Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R.
Que vou ser quando crescer?
Sou obrigado a? Posso escolher?
Não dá para entender. Não vou ser.
Vou crescer assim mesmo.
Sem ser Esquecer."

[Carlos Drummond de Andrade]

(...nada mais metafísico...sempre, sempre choro.)

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Homenagem ao meu filho LINDO que, neste dia 11, completa quatro aninhos de muita, mas muita gostosura, alegria e perspicácia. Você, filho meu, representa em seus quatro anos toda a minha ETERNIDADE de sentimentos e de aprendizado. SEJA. E seja MUITO feliz, da maneira que quiser, da maneira que for.

Lindo, lindo, lindo. Metafisiquemos..., seja, e assim exista. TE AMO.
*chorando...*

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

na paz mais incrível que existe - a interior.


Gosto das coisas que chegam assim, desfazendo o planejado, reconhecendo-se ao avesso no premeditado, espantando-se no imprevisível. Tudo aquilo que vai além do visível, do humano e do planejado me fascina. A coincidência da cor da parede com o humor de uma visita, a sisudez de um bom dia desvairado ao sintonizar a rádio que lhe presenteia com a mensagem primordial do recomeço, o amigo que lhe encontra e refaz aquele abraço que até então você necessitava, a TV que desacelera seus pensamentos quando você já está a ponto de explodir.

No chaveamento dos canais me entrego ao Sem Censura, mato a saudade no melhor estilo que a nostalgia me proporciona e encaro, sem delongas, a trilha do meu momento mais precioso – o de acordar amanhã.
Ele, tão lindo. Embalou e deu poesia ao meu cíclico reapaixonar-me, antes de selar meu destino. Sua voz é prelúdio de eu poder me apaixonar a qualquer momento, e sempre poderei. Eu posso agora.
Tenho com ele um passado de alentos inimagináveis, companheiro de CD surrado dentro do carro, em crises de choro por me atrever a ouvir Metade incansavelmente no caminho da minha casa para a faculdade, adentrando a sala com olheiras de sentimentalismo; Culpado, ele, por corroer-me em bandolins de uma dançarina solitária, em lua e flor, em estrelas e, no mais cruel das minhas vísceras, reencontrando-me em sua versão de Sem Fantasia..., com lágrimas e contorcionismo, entre a terceira e a quarta marcha's', sabendo que sempre não é todo dia.

Minha misantropia sempre reconheceu o seu timbre - e ai como eu amo o seu grisalho -, mãos que dedilham as cordas do violão e, veja só, por acaso pegaram-me no colo mais uma vez. A partir de então posso morrer e nascer o quanto eu quiser, o sonho de agora, e não de outra hora.
Preciso dizer que nesse momento eu choro um mundo inteiro?

zu leben - zu lernen


Vida que jamais perece, contínua máquina rotatória que gira, gira, gira, (mas não na redundância das palavras...), vida que jamais se deixa paralisar por qualquer circunstância. Vida boa que tarda a se entristecer, mestra de tantos mortais, dá-me mais um dia de aprendizado na felicidade. Vida de dicotomias, vida que me guarda. Ciclo de encontros e despedidas, de idas e vindas, de partidas e regressos. É real e é de viés e, como bem sabemos de tudo aquilo que vivenciamos - existir, problematizar, resolver, respirar fundo para o próximo batente, acordar e dormir: similar à Hidra de Lerna, cortada uma cabeça aparecem outras cem...

"E por fugir ao contrário, sinto-me duas vezes mais veloz", diria Chico Buarque.

sábado, 23 de julho de 2011

Never clip my wings

Se tenho o direito ao choro, então eu choro. É o direito que me dou ao passar a ser fã de alguém. Choro como quem perde alguém que embalou meus ouvidos e pensamentos nas situações mais adversas. Choro, e com vontade, como se em algum momento eu me sentisse no direito de, como fã, tê-la como alguém que conheço de tão perto. Foi quem embalou minhas mudanças de espírito e deu vida aos meus sentimentos em inúmeras situações. Fez companhia, permitiu que a conhecesse em suas fraquezas.

Deixemos de lado todo esse julgamento em torno de seus deslizes nas drogas,dispensemos todas as pessoas toscas com suas piadinhas de mau gosto. Paremos um pouco para pensar no quão importante ela foi para a NOSSA época, em como pudemos conhecer alguém tão GENIAL à medida que VIVEMOS, e não nos heróis do passado. Ela deixará certamente um riquíssimo tesouro aos futuros, digna de ser lembrada mais por sua obra do que por sua fraqueza, à medida que o tempo passe. Deixemos finalmente uma alma encontrar seu descanso, e insisto que busquemos fazer isso, algo tão mais difícil do que simplesmente julgar, como inevitavelmente fazemos. A solidão possui diversas facetas, eu bem sei. Sofrer é uma das mais difíceis tarefas que devemos cumprir nessa vida. Difícil mais ainda por trazer consigo embutida a incompreensão dos outros.

Ela, excêntrica. Mais uma pessoa de carne e osso que, envolta em suas particularidades, conseguiu transcender o comum e revolucionou nosso conhecimento sobre a boa música. Uma pessoa linda de talento absurdo, em efêmero tempo de existência, nos prova que é maior do que a vida aquilo que deixamos aos outros. Se foram precisos 27 anos apenas para que sua luz chegasse a nós, que eles sejam admirados, então. Never clip my wings. "Nunca amarre as minhas asas", já dizia a sua tatuagem. Deixem-na voar.

O “nunca mais” dói, apunhala e arde no coração de quem a admirava como eu. O “nunca mais” é o limite do desespero, é a angústia, a carência, o ser órfã de sentimentos. É o adeus. O silêncio. O vazio do replay.


segunda-feira, 18 de julho de 2011

discurso de alento

Leva,

Leva minha alma

Leve e pesada

Doendo em alvitres

Trancada nas horas

- passadas

Em que já não se vive.

Leva

Para alguém que não doa...

Para as horas à toa

Que não seja aqui,

Que não volte de lá

Que suporte a lembrança,

Leve.

Traga

Mais um último trago

Do que já não me habita

E que – sin embargo

Ressuscita.

sábado, 16 de julho de 2011

looking for a postman

As vísceras deterioram-se no pior dos sentimentos, o mais uma vez mencionado luto vem à tona. Lembrar a dor é senti-la em dobro, revivê-la incansavelmente dentro do mínimo espaço de ser. Incapaz de mover os lábios, encontro-me extinta de voz e de palavras para explicar a quem quer que seja o que acontece dentro de mim. Incapaz de mover os lábios, perco o último esforço de conseguir esboçar um sorriso. Já consigo enxergar nos outros as diversas interrogações, porque até então era tão raro eu não sorrir.

Há o colo ao dormir. Há um aperto de mão. Um cafuné que nunca tarda a vir. Há o bom dia com beijo de hortelã, há o filho que me envolve em dias de magnitude, há os amigos. Sou rodeada de mundo, mas não sou mais nada além de solitária desde então, simplesmente porque ninguém conseguirá sentir a dor por mim. O desabafo não consola, lamento, a não ser que alguém consiga entregar dentro de um envelope a minha dor para outra pessoa. Quiçá eu a envie pelo correio a algum desconhecido que cometeu grandes pecados nessa vida (toma, você merece mais do que eu). Quiçá eu me lembre de que aquilo que nos é dado é proporcionalmente igual à nossa capacidade e à nossa força, que eu não vivo as coisas por acaso e que, quer saber..., pelos mistérios entre o céu e a terra eu precisaria realmente doer por dentro para entender o lado de fora, amanhã. Não que eu me julgue merecedora de dor. Afinal, quem de nós, seres humanos, seria? Não que eu me julgue vítima diante da dor. Afinal, concordemos, seria horrível...

Por alguma razão, sofrer lapida os diamantes. Por alguma razão, ressuscitei Monalisa e equilibro a tristeza dentro da minha bolha de contentamentos.

O passado nada mais é do que o presente já dobrando a esquina. O futuro? Uma roda viva incapaz de ser regida como desejamos.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

O vácuo do atemporal


Dor que vem em meio aos beijos, junto à rotina, dentro do café com leite, misturada ao gole de whisky, dentre os tragos que já não dou, nos intervalos dos desenhos animados, entre as páginas das minhas leituras, nos capítulos do meu filme predileto. Dor que ignora a minha vida e a felicidade, dor que decretou seu próprio destino imortal e infinito e não se esquece de bater à minha porta. Dor que não se importa se é noite ou se amanheceu, se é cedo ou tarde. Dor do inevitável, dor da consequência, dor do sem perdão.

[Grito e choro, escondida, a dor não ouve. A dor não vê. Ela apenas existe.]

Maior do que o luto do imediato – aquele que é natural, que se inicia acompanhando a perda e que tão rapidamente cicatriza – é o luto da lembrança. O luto de lembrar dói sem a promessa de passar, oscila, lateja. Lembrar em luto é viver a morte e com ela morrer, segundo após segundo, sem promessa de alento. É cair em abismo, precipitar-se, morrer em precipício. É ferida aberta, é lamento, é frio sem cobertor, sede sem água. Fecho os olhos a espantar o filme que vai e vem nos meus olhos, mas as lágrimas que deveriam lavar só me queimam. Sinto dor. Mal dá para me contorcer em quimeras, o destino é um e a cruz só pesa.
Saudades do que não foi palavra. Lamento em quem não foi sussurro.
O luto da lembrança – eis uma dor que não desejo a ninguém.

sábado, 9 de julho de 2011

O uno e o múltiplo de sermos


Dieses Baums Blatt, der von Osten
Meinem Garten anvertraut,
Gibt geheimen Sinn zu kosten,
Wie's den Wissenden erbaut.

Ist es ein lebendig Wesen,
Das sich in sich selbst getrennt?
Sind es zwei, die sich erlesen,
Daß man sie als eines kennt?

Solche Fragen zu erwidern
Fand ich wohl den rechten Sinn;
Fühlst du nicht an meinen Liedern,
Daß ich eins und doppelt bin?
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"A folha desta árvore que de Leste
Ao meu jardim se veio afeiçoar,
Dá-nos o gosto de um sentido oculto
Capaz de um sábio identificar

Será um ser vivo apenas
Em si mesmo em dois partido?
Serão dois que se elegeram
E nós julgamos num unidos?

Pra responder às perguntas
Tenho o sentido real:
Não vês por meus cantos como
Sou uno e duplo, afinal?"

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(Goethe teria mandado a Frau Willemer uma folha de Ginkgo
Biloba como símbolo de amizade. A respeito da planta do Oriente,
não se sabe se ela é uma que se divide em duas, ou duas que
se unem numa.)

Somos o uno e o duplo, afinal, no nosso existir e no estar com
alguém. E desconfio de quem me disser que em Goethe não há
Filosofia.

(emocionada)

quinta-feira, 7 de julho de 2011

principles of lust

"Plena mulher, maçã carnal, lua quente,
espesso aroma de algas, lodo e luz pisados,
que obscura claridade se abre entre tuas colunas?
que antiga noite o homem toca com seus sentidos?
Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ar opresso e bruscas tempestades de farinha:
amar é um combate de relâmpagos e dois corpos
por um so mel derrotados.
Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,
tuas margens, teus rios, teus povoados pequenos,
e o fogo genital transformado em delícia
corre pelos tênues caminhos do sangue
até precipitar-se como um cravo noturno,
até ser e não ser senão na sombra de um raio."

[Pablo Neruda]