O recurso patético ao proparoxítono humorístico ou sarcástico ou satírico

O recurso patético ao proparoxítono humorístico ou sarcástico ou satírico

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Trilha chuvística de começo de uma semana gostosa


"Qualquer dia da semana
um coração vazio;
Se enche de amor
Qualquer dia da semana
É primavera
E um coração vazio
É um copo que enche
De inverno o inferno do eterno furor
De viver
Encher nosso copo corpo quente com luz seduz
Num coração com varanda, vista pra frente e jardim
E tudo isso cabe num barracão
Lua que fura e ilumina zinco quente
Eu e você, nossas roupas comuns
Iluminadas pela mesma luz de um lampião
Já passou, não passou
Outro sol, outro"
Hihihi :~

sábado, 16 de abril de 2011

Desejo de viver o que vivo para sempre.

Diz Sartre que o desejo se exprime por uma carícia, tal como o pensamento pela linguagem... eu suspeito que a linguagem é uma carícia e que o pensamento é um desejo.

ZéNeto detodasasruas


O seu nome? O seu nome? O Zé Neto emite sempre um duplicado das suas frases. Pediu-me um cigarro, um cigarro. E fogo, e fogo. Só depois perguntou o meu nome. Mônica, disse, sabendo que aquele princípio de conversa já acontecera outras vezes. Virou-se para os poucos circunstantes, o cigarro aceso entre o dedo médio e o anelar e anunciou, na voz volumosa e rouca: O nome oficial é Mônica. Mônica o nome oficial. Ninguém o ouviu. Também ninguém o olhou...

... Ele foi o flanelinha mais amável, doce e cordial que já vi. Sua aparência diria o contrário, mas a doçura de sua personalidade compensava. Uma alma que, por razão maior, adentrou um corpo estranho, nessa vida. Amável, sozinho. O sorriso tinha algo de ainda ser criança.

Um dias desses o Zé Neto me encontrou numa loja de conveniência e disse: Iogurte, iogurte. Acompanhou-me à prateleira e, antes que lhe perguntasse a marca e o sabor, apontou com os dedos grossos e sujos, decidido: Destes, destes. Por entre a profusão de marcas que me confunde, O Zé Neto sabe o que quer. - E sabe muito mais coisa do que nós podemos conhecer ou compreender. - E por isso jamais neguei um iogurte ou algum pão caramelado, quando o vi. Não havia maldade naquilo que pedia: a maldade habitava sempre e apenas no seu estômago - doía.

Quando os demônios o atormentam, grita ou canta. Sabe estribilhos de canções e repete-os. Por vezes, cria as suas próprias letras. Tão loucas como as de qualquer poeta em confusão. Invejei-o.

Zanga-se muito. Só ele saberá com quem ou com o quê. É uma zanga doce. É um menino grande, que franze as sobrancelhas e fecha o bico. É quando solta palavrões, em alto e bom som, em duplicado, em triplicado, tantas vezes quantas a raiva o exigir. Como qualquer um de nós gostaria de fazer, e não o faz por medo da classe.

O Zé Neto tem sempre muito calor, suponho. Há dias em que não suporta a roupa e se despe. Chega a ficar só com a bermuda. Claro que escandaliza as pessoas de bem, estas sinceramente hipócritas. O Zé Neto não sabe que não é um jovem atlético e que a rua não é uma “passerelle”.

Já o vi dançar. Nos quadris, o Zé Neto tem o ritmo de “twist”, e os braços ensaiam figuras de ginástica aeróbica. De fazer inveja a muito pé-de-valsa que anda por aí. Já tentei algo parecido, mas não é para qualquer um.

Devo dizer que nem sempre é assim destrambelhado e exuberante. Hoje encontrei-o sentado numa praça, de perna cruzada, recostado, com um cigarro apagado entre os dedos. Tem fogo? Tem fogo? E nem sequer descruzou a perna. Aproximei o isqueiro. Aspirou fortemente, repetidamente. Entre duas fumaças, respondeu: Obrigado, obrigado. Mal sabemos nós o sofrimento que faz parte do destino dele. Sabemos que ele vive, e sobrevive, em duplicatas, na solidão, na singularidade, no eco. Sei que ele é capaz de completar qualquer complexidade, só na sua simplicidade.

Há dias em que o invejo. Tão livre, tão livre.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

semvéu,semrazão.


O céu das seis da manhã mais parecia o de duas horas antes. Tudo nublado, pouca luz. O cenário perfeito para aquela que já nasce conosco - a preguiça. As obrigações, estas que eram a de todos os dias, não fizeram diferença. Foram atendidas sem reclamações. É a rotina que amo, afinal.

Diferença fazia o tempo livre que teríamos, depois de cumprir os objetivos matinais, não por ser inédito, mas por esse dia ter acordado com uma atmosfera dessemelhante. Chuva densa nessa cidade do sol. Frio nos pés. Brisa gelada. Céu grisalho. Café quente, com leite, bem doce. Café da manhã na cama. Chá. Sorrisos. Filme. Temperatura agradável, com tendências de frio. Amor debaixo dos lençóis. De fora, veríamos apenas o movimento, mas por dentro havia muita coreografia...coisas que se esquentavam da maneira mais natural possível.

Beijos. Pego no sono. Dividimos o filme em duas sessões, se bem que há muito tempo ele já ficara em segundo plano. Choveláforaeaqui...

…No strings attached. Hora de viver.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

falecomaminhamão


A palavra grega que designa o “sábio” se prende, etimologicamente, a “sapio” - eu saboreio, sapiens, o degustador, sisyphos, o homem de gosto mais apurado; um apurado degustar e distinguir, um significativo discernimento. O sabor das palavras, o tempero dos questionamentos, meu nutritivo sair da inércia. Constitui, segundo a consciência do povo, a arte peculiar do filósofo. Tentar dizer o sentido sem deixar que o mesmo se perca - e nem sempre isso é fácil; pensar sem perder a totalidade. Impor à totalidade a nossa subjetividade, ou seria o oposto?

O filósofo busca ressoar em si mesmo o clangor total do mundo e de si, expô-lo em conceitos, através de abstrações. Creio que cabe ao amante da filosofia o constante ciclo de digestão e transmissão do saber. Amar o pensamento. Apaixonar-se pelo conhecimento, identificar-se - ou não - com as idéias. E nelas eu me encaixo na maioria das vezes...

Sinceramente, defendo a idéia de muitos que tentam mesclar o pensamento filosófico ao cotidiano. Abomino aqueles que se afogam em seu ceticismo absurdo, julgando nefasto tudo aquilo que adentra o senso comum, embora este não seja tão agradável quando visto de perto - admito. Geralmente fazem parte desse meio ‘calouros deslumbrados’ com as idéias pré-concebidas, jovens esperançosos e crentes de haver no final do arco-iris um ser perfeito e nutrido de super intelectualidade, ao qual eles almejam se igualar, e sinceramente eu só vejo neles um protótipo desesperado de pseudo, fiel misantropo que não experimenta as efemeridades da vida..., ou que finge que não o faz, para não fazer feio diante dos demais. Neste ciclo também se encaixam os que já têm grande conhecimento, muitas vezes os que nos ensinam hoje em dia, mas que com o perdão da palavra – enrustiram-se em suas armaduras sérias e autossuficientes.

O homem de gosto mais apurado não precisa ser necessariamente um rabugento. Há beleza no cotidiano sem que seja necessário cuspir nos outros ao pronunciar Nietzsche – e afirmo sem piscar que muitos deles não o compreendem nem por alto..., embora seja tão popular e tão interessante - . Não é necessário vangloriar Heidegger para mostrar que atingiu um patamar mais elevado que os demais. Tampouco adianta declamar em latim aquele pensador mais exótico que ninguém mais conhece. Caham. Dá licença...

Vejo tudo isso esboçado em muitos dos meus colegas. Detesto o pedantismo. Todos esses autores estão ali, na minha estante, e nem por isso preciso mencioná-los na hora do intervalo, para que os outros ouçam. Já chamo atenção demais baforizando meu cigarro perto deles.

Creio que o sábio reina, como já disse, no saborear das informações. Digerir, abstrair, absorver. Algo totalmente distante da moldura exposta na parede, no avatar do seu site de relacionamento, no pigarro pedante das frases prontas, nas citações mal compreendidas dos grandes pensadores, dignas de lotarem um caderninho de reflexão.

Qual é a graça de usar a filosofia sem tê-la conosco no cotidiano? Sinceramente, não quero me perder nesse meio ilusório de semi ou pseudos, só pelo fato de eu me encontrar em outros sítios, na música, na tv, no dia-a-dia de mãe ou de esposa, na conversa de salão, na mesa de bar, nas piadas, entre cerveja e conversas. Parafraseando Sartre (pigarros), o homem não é a soma do que tem, mas a totalidade do que ainda não tem, do que poderia ter.

(Grilos)

Nada a ver, foi só para parafrasear mesmo.

terça-feira, 5 de abril de 2011

maybetomorrow


Depois de discorrer sobre o tempo, decidi procurar o analista mais próximo de casa: sentei no sofá, deitei no divã meu alter ego e pedi que proferisse tudo a mim, sem rodeios e prosopopéias. Ouvi cada ladainha. Burburinhos a respeito de abstrações, narcisismo de 1,60m. Diagnostiquei: complexo de boneca estúpida. Faz parte dos meus defeitos (digo, dos defeitos do meu alter ego) querer sempre extrair a rotina, deixá-la para escanteio. Mas o que é a felicidade senão uma constante? - Falei. - Felicidade é rotina, é calmaria, é tudo bem. e bem que me queimei agora... cadê o cinzeiro?

Sentada no sofá, prestei atenção em cada detalhe daquele corpo desnudo e pensante, deitado. Os olhos rodeando o teto da sala, as mãos cruzadas na vã intenção de encaixar as idéias soltas, as pernas cruzadas e esticadas, balançando os dedos dos pés. É a típica cena de quem não tem nada a ser mudado e analisado, penso eu, e por isso não cobrei a hora da consulta: vá pra casa, deixe o tempo para os velhos. E, cá entre nós, há coisa mais interessante para você fazer nesse exato momento.

E mais um trago ao final de tudo.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

mandamentointernetístico


Já não é o original que ilumina e transfigura o cotidiano. É o cotidiano que torna o original inteligível.

(E é tão raro encontrar o genuíno hoje em dia..)

Muitas vezes não é o admirar (puro) que move a interpretação e absorção dos atos e do existir/ser. Por muitas vezes enxergamos nitidamente no outro a falta de capacidade de se criar algo, e aí nos deparamos com cópias absurdas de nossas coisas mais obsoletas (ou não), mas tão consideráveis a olhos alheios. Não obstante, admirar (com todo o seu atributo de imitação) é quem mais empobrece e desfigura o original - É aí que sublinhamos o cotidiano -. Mas é quem requisita metade da minha gratidão e, também paradoxalmente, quem abastece mais ainda minha busca pela originalidade, mesmo que por muitas vezes eu não consiga, paciência. O diferente ensina. A cópia paralisa. Inspire-se, mas não xeroque. Aprendi isso. Quem o copia pode gostar daquilo que vê, mas também deixa morrer sua própria capacidade intelectual. Há 50% de tristeza nisso, sabia. Por isso hoje me inspiro. Amanhã, não sei.

Ao fundo: Lobão - Quente + Bambina

quarta-feira, 30 de março de 2011

Sermão informal sobre o resmungo


Ouço por aí as pessoas reclamando dos dias que têm vivido. Da má sorte, dos tapas na cara, dos “nãos”, das pedras, dos buracos, da chuva e dos empecilhos. Eu me calo. Posso estar mais ou menos errada, mas não por completo: penso - aquilo que você julga acontecer com você nada mais é do que o reflexo do que você faz aos outros (investigue bem lá no fundo, debaixo do tapete: há algo de sujo nos seus atos e você nem se deu conta disso.). É a lei da ação e da reação. O que bate, volta. Pense em tudo o que você já falou sobre os outros. Pense em todas as suas atitudes maldosas, na inveja que você sentiu (e a camuflou com vestes de desdém), no preconceito, no desprezo, nas críticas, nos boatos. Antes de achar que haverá sempre um bem para recompensar a sua coitadinha 'má fase', atente para a obrigação de reconhecer seus defeitos e antes de qualquer coisa conserte-os, porque só então a recompensa vem. A lição para quem se dispõe a aprender. O bem para quem é bom. O mal para quem maltrata. E não se iluda com todos aqueles injustos se dando bem por aí – se não aqui, acolá eles terão as “recompensas” deles. Nada nesse mundo passa desapercebido. Já ouviu falar que o mundo dá voltas? Já ouviu falar em muitas vidas? Já tentou ser uma pessoa melhor nesta?
Pois vou contar um segredinho. Aquele que lhe faz o mal na verdade é o mais infeliz dessa história, e não você (o que sofre). Ele é fraco de alma, de fé, de paz e de tudo o que for positivo. Ele sofre, e por não saber o que fazer, agride. Você é a vítima, e a melhor resposta que poderá dar aos outros é a sua felicidade inabalável. :)
Essa, certamente, contaminará quem estiver à sua volta, e o ser infeliz com certeza deixará de ferir você e passará a viver a própria vida, saindo da mediocridade.

domingo, 27 de março de 2011

my wonderland

Navegar é preciso. :}
Felicidade? Consequência boa.
Dias gostosos com maridón e filhotinho. E comigo. COMIGO!!!
Paz e semanas recheadas só com aquilo que realmente gosto. Faculdade. Filosofia. Filmes. Work. Paz again. Espiritualidade. Seguindo uma trilha na qual não preciso esperar por ninguém. Bom demaissssssssssssssss....... E por falar em trilha, esta por sua vez sonora - dã - Mumford & Sons. Totalmente trilha dirigística carrística dos meus dias. Volume nas alturas. Fica a dica.

Só digo mais uma coisa: no dia 6 de junho Deutschland me espera. Feliz pelas tabelas.

outra coisa é o Homem de viver


Terça-feira. Despretensiosamente - quase que por transmissão de pensamento ou coisa que o valha. (...) Ao fundo, o ruído gostoso da chuva. Foi no dia 22 deste mês, há uns dias, logo ali na sala, antes de dormir. Foi na volta da faculdade, quase desacreditada de ainda render mais alguma coisa. Mais precisamente às 22:45, na TV da sala, que é para não acordar o marido. Ali. No Canal Futura. Entre o chá de camomila com hortelã, o leite gelado com Nescau e os copos de água. Eis que, num desespero proveniente da insônia e no chaveamento frenético dos canais, alcanço o ‘32’ e me deparo com o fantástico programa “Umas Palavras”, com o mais fantástico ainda Benedito Nunes. E faço todo esse alarde só pelo fato de haver ali uma grande coincidência, pois justo nesse dia eu reli tanta coisa dele..., como quem não se conforma que ele foi e não volta.

Voz doce. Perspicácia sem tamanho. Conhecimento de mundo que chega a doer no meu calo de inveja. Analogias completamente pertinentes e inspiradoras. Heidegger e Sartre via Clarice Lispector. João Cabral. Deslizamento da Clarice. Aquele do vigor verbal extraordinário. Uma coisa é o homem de escrever, outra coisa é o homem de viver. A crítica literária floresce quando floresce a Literatura. E, permitindo-me parafrasear ainda mais o filósofo e crítico, aprender alemão é o “serviço militar” para se entender [e aprender] a Filosofia. E aí as coincidências gritam...

terça-feira, 15 de março de 2011

desconexo III


Meu mundo fantasmagoricozinho dilacera meus sentidos. Estou, talvez, perdida neste tempo, meramente colada à embalagem deste lugar que me soa um perfeito estereótipo. Mas sei que não o é. Anseio tanto por definir-me que as palavras, tímidas, se escondem, e quando as encontro, sinto que não me bastam (da mesma maneira sucede com as vírgulas, não nego). Por mais que eu tente compreender as pessoas, por mais que eu tente visualizar seus profundos, por mais que eu persista, eu sempre vejo espelhos nelas, e ao invadir seus sonhos e seus sentimentos acabo me vendo ali, em cada uma. Termino sem compreensão nenhuma, pois inutilmente não compreendo a mim mesma.

Não enxergo os outros. Tento - arduamente -, mas não é sempre que nos dão a verdade. Perco-me no emaranhado dos quereres, deixando de viver, por um segundo, e então preciso começar tudo outra vez. - Tua pele, meu domínio. Teu cheiro, meu desejo... Assim a roda viva sabiamente me põe deitada ao seu lado novamente, e então ali encontro a chave para todas as respostas, o em-si e o para-si do nada, o tudo, o ‘ter a certeza’ de que é para ali que os pássaros sempre voam no final das estações. É o destino de querer ser feliz e cuidar do que possui. É saber que você me protege do mundo. É honrar as decisões e agradecer por não precisar de mais ninguém. É entender que do lado de fora haverá sempre alguém que desejará me corromper, que desejará te corromper, e a bolha não estourará. Me orgulho. De todas que sou, não há nenhuma que não te queira, não há nenhuma que não te ame e por ser assim brigam em mim.

desconexo II


...E eu que sempre me firmei no que parecia não ser óbvio, lhe encontrei mais uma vez. Continuo a acreditar no paradoxo que vivem as paralelas do mundo. Eu sou uma estrada interminável. Sou feliz.


É preciso saber o que se compreende, ou pelo menos ter consciência daquilo que se compreende. Como se tudo dependesse de uma compreensão primária, que não satisfaz - se for superficialmente analisada. É preciso traduzir-se a fundo, porque eu sou por dentro, mas também por fora.

Sempre é melhor amar demais do que de menos. Ame!... O resto é besteira. O resto não é. O amor é um enigma. E esse enigma faz de mim esfinge: "Decifro-te ou devora-me!"

Existir é algo muito complexo, há sempre dúvidas quanto ao que é real, e quanto ao que não é. Por isso, sempre digo que não existo - eu sou! “Ser” é pura metafísica. Existir, pura ilusão. E o claro me cega a alma.

sábado, 12 de março de 2011

desconexo


Tua pele é meu domínio. Deito ao teu lado e me entorpeço com as vertentes do teu cheiro. Recosto-me em teu pescoço. A barba, mal feita, esta na medida do meu desejo, arranha meus temores trazidos dentro da bolsa, os quais catei nas ruas de tempestade. Teu timbre grave os destrói na primeira palavra, não me preocupo. Não tenho medo. Vivo na bolha, nas paredes coloridas desse quarto silencioso. Vivo no silêncio e nos acordes da tua companhia. Teu suor, mero reflexo de tua posse: já me vejo entorpecida. – e então não consigo controlar minhas mãos. Meus olhos te buscam. São olhos que se perdem no verdadeiro significado do olhar. E eu tento ver, no invisível imaginário, aquilo que minha alma busca, o que me consome depois de consumida.


Olhar pela janela e entender que a clausura do quarto nos protege de tudo, mas ao mesmo tempo nos faz melhores para o mundo. Quem sabe mais vulneráveis, mas, sinceramente, é no paradoxo que as coisas se encaixam. O mundo lá fora se faz carente. Existem os outros, em inferno e paraíso. Lembrei até de Sartre. Viajo.

quinta-feira, 10 de março de 2011

La femme comme il falt


O primeiro olhar lançado sobre ela é como um prefácio de um belo livro, ele lhe faz pressentir um mundo de coisas elegantes e finas. Em meio às vulgaridades, encontra-se, por fim, uma flor rara. Ela não veste cores berrantes, nem meias que chamem atenção, nem a fivela do seu cinto é muito trabalhada; é da mais requintada simplicidade.


La femme comme il faut sabe como prendê-los dos quadris ao pescoço e sugere as mais belas formas ao escondê-las. Ah! Como ela domina, permita-me a expressão, “o ritmo da caminhada!”. Possui, enquanto caminha, um arzinho digno e sereno, como as madonas de Rafael em seus quadros. Vê-se a figura fresca e, repousada de uma mulher segura de si, sem fatuidade, que nada vê e tudo vê, cuja vaidade embotada por uma contínua satisfação expande sobre sua fisionomia uma indiferença que desperta curiosidade. É impossível confundi-la com a burguesa, que está sempre ocupada, sai não importa o tempo que faça, apressa-se, vai, vem, olha, não sabe se entra ou não entra numa loja. Ao passo que a femme comme il faut sabe bem o que quer e o que faz.

Ninguém como a femme comme il faut para estar à vontade dentro de suas vestes; nada a incomoda (...) Ela sabe comunicar o valor do pensamento por uma maneira de se conduzir inimitável. É sábia o suficiente para lhe fazer sempre esperar...

A femme comme il faut é dona dessas nuances, de maneira maravilhosa.



[Estudos de Mulher;
Honoré de Balzac.]

domingo, 27 de fevereiro de 2011


Benedito Nunes, embora nos deixando, foi um dos maiores críticos literários do Brasil. Certamente ele cumpriu bem a vida que Deus lhe deu na Terra. Lembro como se fosse hoje o dia em que fomos à sua palestra, na faculdade. O deslumbramento e a realização em um só momento, anotações em um caderninho guardado até hoje. Eu era ainda uma calourinha de Letras...


Mas fica a pergunta: Quem escreverá sobre Clarice, agora?

Permitindo-me parafrasear Moacyr Scliar, outro que nos deixa em arte e literatura: se o escritor não tiver prazer escrevendo, o leitor também não terá. No caso deles, o prazer é imortal.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

literatura

Harold, três anos de idade, dá um livro a seu pai. “Leia uma história”, suplica ele. O pai levanta-o, põe-no ao colo e então lê o livro aberto entre ambos. Ocorrem interrupções ocasionais, quando ambos apreciam as imagens que ilustram o texto - ou então quando Harold traz o livro e diz: “não, agora leio eu uma história”, e, virando as páginas e seguindo o texto com os olhos, improvisa, ao mesmo tempo, uma história que é um composto do que tem ouvido e de sua própria imaginação. O pai se orgulha. É um novo mundo. Harold está aprendendo a ler.

(...)

Certo dia, uma carta foi recebida, lida e discutida por vários membros da família. Quando colocada sobre a mesa, Harold a toma. Curioso, olha toda a carta e dá voltas, pensativo, com ela debaixo do braço. Pouco depois, virando o lado branco da folha, ele diz: “Quero escrever”. Então ele pede um lápis e, sentado em sua cadeirinha, fica muito ocupado durante cinco minutos. A seguir, leva a folha rabiscada até a avó, com o pedido de que ela a leia. Ela vacila? Certamente que não. Ela lê prontamente as frases que ele possa ter composto, em todo o seu universo criativo e limitado, para sua grande alegria e satisfação. É um novo mundo. Ele está aprendendo a escrever.


(In. Yetta M. Goodman, p 11 e 12 – [adaptado por mim]).

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

fraca, mas pavio curto

Só digo uma coisa. É FEIO ser mesquinho. Ou você faz o bem, ou simplesmente não faça. Fazer chantagem, jogar na cara e querer ter o controle em cima de algum bem que julgam ter feito a você é horrível. É melhor nem ter tentado ajudar, nem ter concordado com isso. Magoa.

Pior quando a pessoa TEM que fazer as coisas em virtude da "boa ação" que recebeu. Aí vira chantagem. Aí os outros se aproveitam, na maior cara de pau, inventando mil desculpas para que a responsabilidade caia sempre para o lado mais fraco. E eu como sou besta, né...

Só digo MAIS uma coisa: EVITE precisar das pessoas.

Elas podem usar isso contra você.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

no me lo so spiegare


Cheiro, pele, toque - rotina que ancora meus sentidos e sentimentos, eternizando minha felicidade enquanto durar. Em todo o resto, o contrário. Sair da inércia, da estagnação, da mesmice; descartar o descartável, nem todo mundo é tão amigo assim...; nem todo mundo é tão necessário assim. Nem tudo precisa continuar como sempre. Solucionar, dissipar, distanciar-se. Dissolver tudo o que não for tão sólido; mudar os ares, mudar as cores, mudar as águas do rio que permanece sempre no mesmo lugar. Repito e repito, como lema. Aumentada a fé – aquela que é só minha, e de nenhuma instituição -, hey ho, let’s GO.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

learn to fly


Delibo a loucura, sorvo a tempestade da rua, mastigo a impaciência, digiro a calma, e então bebo mais um gole de psicose. Porque sou alucinada, porque sou louca, porque sou tudo de coisa normal. Fecho os olhos e sinto penetrar o fluido da liberdade, do cansaço corriqueiro substituído pelo vigor da individualidade. Difícil de entender? De fora sim. Quem me lê não entende tanto quanto eu me entendo. Quiçá uma amiga querida e cúmplice me entenda, mas não. Mas aqui dentro bate frenético um órgão que jorra sangue renovado por todos os lados, e que entende mais do que ninguém o que tento expressar por meio de sujeitos e predicados. É respirar fundo e subir a escada, não tem segredo. É não esperar a aprovação de ninguém, nem de quem você espera que aprove. É dizer, gritar pela janela: sou assim e pronto! E ver quem lhe acompanha lhe aceitar assim (e que bom que aceitou...). E pentear o cabelo defronte o espelho, usar aquele batom vermelho e dizer: hoje beberei. Hoje dançarei. Hoje exorcizarei as chateações, cuspirei os tragos poluídos do ser-em-si, do ser-para-outro. Nada a ver com Sartre e seu existencialismo, tem a ver comigo mesmo, com o meu umbiguismo. Um querer que o mundo se dane, que as pessoas efusivas e pouco sinceras se estripem. Sempre com uma dose de humildade, para não perder o foco. Vejo o mundo dar voltas... não pela embriaguez, mas sim porque o destino tira e dá, e aos que nos fazem mal tira na exata hora certa: quando mais precisam. Vi quem me fez mal sofrer as próprias dores, e apesar de ter tido a oportunidade de rir disso, me ofereço sempre para ajudar. Aprendendo lições, sempre.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Amicus certus in re incerta cernitur.


Falamos da maturidade, falemos, mais uma vez, falemos do que crescemos, do que atrofiamos.
O que você aprendeu hoje? E nos últimos anos? E na última semana?
O que você vê no espelho?
Qui servit communi servit nulli. - Amigo de todos e de nenhum, tudo é um.

Uma das lições mais importantes, dentro de todos os meus poucos 25 anos, é que realmente ninguém é melhor do que ninguém. Não sou e nunca serei melhor do que você. Ninguém tem o direito de me humilhar. Do mesmo modo, também não posso menosprezar os outros. Lembre-se: apontar os defeitos e as tropeçadas dos outros será sempre uma fuga para seus próprios defeitos, e estes eu sempre terei. Você também. Todos os têm. Ninguém é perfeito, já dizia o lugar comum.

Aprendi que a fé existe para ser adquirida, sentida, vivenciada. Cheguei a não tê-la. Reneguei aquilo que me trouxe até aqui. Quase a perdi, e paguei por isso. Não fui castigada – vejam só como são as coisas em sua magnitude, na ironia da bondade maior -, não fui condenada, mas recebi de presente do Chefe situações difíceis e alarmantes para que minha resistência fosse testada, para que a minha crença nos dias melhores não fosse esquecida, para que a fé me reconquistasse e fosse reconquistada. Não fui vingada, mas sim ensinada a não deixar por aí o melhor que o ser humano pode possuir: justamente a fé. Hoje prendo entre os dedos todos os fios de espiritualidade que me forem proporcionados. Nada acontece por acaso, e digo com muito orgulho que todas as pessoas que conheço nessa vida cruzaram meu caminho para que eu tirasse dali alguma lição. Isso acontece com todos. Meu marido e seu ciclo de amizades são um grande exemplo. Aprendi a gostar de todos, cada um à sua maneira. Compreendi que o mal que alguém pode lhe fazer não deve ser revidado, porque não é na vingança que você aprende, e sim na superação de um obstáculo. E aquele que lhe prejudicou também tirará da situação a grande lição final, é só dar tempo ao tempo. E o mundo dá voltas, ah, como dá! Não se preocupe, nunca. Lembre-se: antes sofrer o mal a fazê-lo. Silencie. Viva. A volta por cima será sempre seu melhor trunfo.

Entendi que ninguém precisa ser como eu para que seja perfeito, correto, perspicaz ou ético. O mundo é feito de cores, cheiros, peles diferentes, e não é por acaso. Como existem pessoas fortes e guerreiras ao meu redor, mesmo que na heterogeneidade das suas qualidades – estas nem sempre puras, nem sempre iguais às nossas -! Serão sempre pessoas melhores do que eu em alguma coisa, lembrem-se sempre disso quando pensarem em analisar a superficialidade de alguma alma. Do mesmo modo, talvez eu até tenha algo que as outras pessoas não têm, mas aí no lugar de debochar, o mais correto a fazer é ensinar, compartilhar.
Amor amore compensatur. - Amor com amor se paga.

Já havia pensado por esse lado?

Hoje, dei-me conta de que admiro os outros muito mais do que critico. Eu simplesmente negava o diferente. E isso eu fazia com uma atenção bem maior do que a de quando procurei evoluir, diariamente. Isso é ser medíocre, evite.

Antequam noveris, a laudando et vituperando abstine. - Antes que conheças, não louves nem ofendas.

Faça um exercício diário. Que tal, todos os dias, aprender com alguém diferente o que quer que seja? Procure tirar uma lição de tudo. Busque admirar todos os dias alguma pessoa próxima a você, ou algo de novo nela. Sempre haverá algo de belo no Outro, e é seu dever reconhecer isso, sempre. Você será sempre o "eu" e as circunstâncias. É o Ser e o meio. Mas não esqueça. É importante que você faça tudo isso com o auxílio da sinceridade, pois não se trata apenas de um acúmulo de pontos, e sim de um exercício de humildade. Agir sem honestidade é hipocrisia. Se esforce. Com o passar dos dias, isso deixará de ser um exercício para se tornar um grande e valioso hábito, inconsciente e gratificante. Você se tornará bem maior do que é!

As pessoas sempre falarão mal de você, não importa a bondade que você impuser. As pessoas serão falsas, hipócritas e medíocres, mas não significa que você precisa ser igual. Continue a fazer o bem, deixe que os outros aprendam com o mal que lhe jogarem. Haverá sempre alguém para puxar o seu tapete, ou para criticar aquilo que você faz ou pensa. Retribua com o oposto. O próprio mundo se encarregará de girar, sem que você use a sua força. E é sério. :)

Aceite a humildade e procure partir sempre do zero, em seus conceitos. Todo dia é um recomeço. É o nascer, o morrer das angústias e dos pré-conceitos. Metaforizando nosso aprendizado, caro amigo, veja, está lá o Sol, sempre nascendo e morrendo diante dos nossos olhos.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Blindenessssssss


Em meio a esse lapso energético que dominou o nordeste na noite passada, percebi o quanto somos inúteis e desamparados perante a potência e a dependência diante das NOSSAS criações. É num momento como esse em que lembramos seriamente que o monstro pode sim se voltar contra o criador - o Frankenstein que se manifesta contra o seu feitor. Acabou a energia. E agora? Na falta dela, vejam só, tornamo-nos fracos, burros, despreparados. Voltamos à escuridão de nossas cavernas, procurando saber o que faremos dali pra frente. O nosso mundo interior voltou ao princípio.

Não havia nada. Não havia ventilação, não havia música, não havia elevador, não havia luz, não havia noticiário que esclarecesse o ocorrido, porque também não havia nada que nutrisse o fio da tomada. E nem haveria também como ter notícia por meio da internet, porque o computador não teria como ser ligado. Tentando o celular, cuidado, pois não haveria carregador para alimentá-lo. Meia hora após o apagão, recebo a seguinte mensagem da minha irmã, pelo celular, anunciando o que lera no twitter (acessado também pelo aparelho telefônico, obviamente):

"O Nordeste inteiro sem energia. A barragem da usina de Paulo Afonso arrombou e inundou 5 cidades. Previsão de muitos dias sem energia para Pb, Pe, Rn, Ba e Ceará."

Imediatamente só me veio à cabeça a singela palavra: fudeu. E nada mais.

Na hora da sede, qualquer pingo d’água é bem vindo. Na falta de meios para se obter uma notícia, qualquer boato é reza. Na hora em que lemos aquilo toda a curiosidade foi saciada. Claro que depois eu me irritaria com a má fé das pessoas que inventaram essa estória, mas na hora eu só fiz balbuciar o palavrão e fim.

Fudeu.

Criou-se quase que instantaneamente uma espécie de sentimento de impotência, e ali sabia que, se fosse verdade mesmo o que acontecera, eu não era a única. Vi-me imediatamente imersa e presa dentro de “Ensaio sobre a cegueira”, como também dentro de “Intermitências da Morte”. Uma cegueira de ignorância, visto que quem me domina é a criação - ela, a eletricidade. Sem ela, ironicamente senti como se cegasse. Já me vi economizando mantimentos, já que não poderia mais utilizar aparelhos como o liquidificador. Comecei a economizar a bateria do celular. Logo providenciei o estoque de velas e fósforos. Planejei todo o entretenimento do meu filho, as atividades, a alimentação e a higiene. Sem a energia, poderia vir também a falta d’água. Acho que nessa hora eu já estava praticamente me tornando a personagem central do livro. Ensaiando a própria cegueira.

Imaginei também as pessoas precisando ter seus bebês, ou necessitando morrer. “Seria interessante que você segurasse só mais um pouquinho, quem sabe até terça-feira. Estamos sem energia”, diria o médico. “Acho que hoje não é um bom dia para morrer. Sabe como é, está um breu.” Nascer e morrer precisariam ser reinventados.

Em meio a toda essa preocupação, iniciada por volta da meia-noite com o boato maldoso, acabei por dormir lá pelas duas e meia da manhã, exausta de tanto planejar a sobrevivência. Acordei com o telejornal anunciando uma falha no sistema de proteção. Nenhum alagamento. Nenhuma cidade submersa. Sequer um dia de cegueira. Sequer um rastro de desamparo. Mantimentos a salvo. Foi só aí então que percebi que o ventilador há horas tinha voltado a girar. A ânsia de ser um personagem de Saramago, e só dessa vez - felizmente, ficou para outro dia. Tentarei, quem sabe, a qualquer hora, adentrar “O Conto da Ilha Desconhecida”. Então eu não dependeria de nada, só de mim.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Pelo não-observador, o mal reflexo.


Existe algo nesse mundinho mundano que não cabe em uma palavra sequer, para descrever tamanha mediocridade. É o tipo da coisa que merece um leque de palavrões. Já ouviram falar em personagem? E em síndrome do telespectador? Bem, esta última eu inventei, na verdade nem sei se existe tal denominação, mas caberá aqui.

Eu, você, ele, ela – somos pessoas normais, as quais não anseiam por sucesso, nem por fama, nem por aparição televisiva. Apenas existimos. Somos do tipo que estuda, do tipo que casa, do tipo que tem filho, do tipo que tem amigos, do tipo que vive. Não precisamos de telespectadores nem de estereótipos. Não precisamos ser personagens.

Mas é bem aí que entra a mania irritante de as pessoas – que mal nos conhecem – sempre inventarem um personagem para nós, pobres mortais, pessoas - quiçá - nefastas. No meu caso, por ser mulher de músico e por freqüentar sempre seu ambiente de trabalho, já sofri um bocado. Nunca consegui ser somente a Kika, a Mônica, esposa do cara da banda, mãe do Ícaro, aquela que vai prestigiar o seu trabalho sempre que pode, tomando sua cerveja e fumando seus cigarros. As pessoas querem sempre ver o cirquinho alheio pegar fogo, sabe-se lá por quê. Eu costumo pensar que é para ocultar a própria infelicidade, o próprio medo (aquela história de projetar no outro para ocultar o próprio defeito, ou coisa que o valha), e aí dá pena. É deprimente. Tratam logo de estipular características da própria fantasia, apimentam, temperam, como quem não se satisfaz com as novelas ou com os realities, como quem não se conforma com sabor inato do chuchu. Então elaboram adultérios, inimizades, mentiras, ciúmes, conflitos, rótulos. Já fui a muito, a totalmente ciumenta; já fui a adúltera; já fui a mosca morta...; a que se acha; a que não acha nada; já fui a suuper traída. Já fui tudo no mundo, menos eu. Aí é o tipo da coisa que a gente expressa em um sonoro “Caraaaaaalho, doido, vá se tratar!”. E o que raios eu tenho de tão sem sal para quererem sempre acrescentar algo à minha personalidade? Daqui a pouco, caros leitores de uma pessoa só, deixarei de ser alguém para ser múltipla. E você também. Tome cuidado com isso. As pessoas subestimam a própria inteligência, tomam conta de nós antes mesmo de sabermos quem somos. Dou um conselho muito bem vivido, mas só posto em prática a partir de agora: compreenda bem quem você é, e faça sempre o impossível para mostrar por completo o conteúdo. A sua imagem refletida por aí nem sempre será o melhor reflexo. Portanto, seja. Seja, e depressa.

De fósforos e querosene esse mundinho está cheio.

domingo, 30 de janeiro de 2011

sindromedomorarcommeninos


Deparou-se com a autoanálise. Foi diagnosticada - síndrome da mania de organização. Olhos atentos a toda e qualquer movimentação no apartamento. Um alfinete fora do lugar, e já é possível ouvir as palpitações do seu peito. Olhos atentos. Segue os passos de bagunça do filho, organiza as mazelas que o marido deixa a cada metro quadrado, revisa toda a disposição dos móveis e arranjos de flores, para que nada saia do lugar. Lista de compras pronta e organizada há semanas, mas que é esquecida em casa por ele, no dia de ir ao supermercado (de que adiantou?). Camisa na cadeira da sala, violão em cima do sofá; chupetas e paninhos nos quartos, na sala, na cômoda, na mesa do computador. Louça absurdamente mutante, multiplica-se num piscar de olhos. Caixinhas de achocolatado no escritório. Brinquedos esquecidos em lugares impossíveis de descrever. Livros com ares de terem sido reposicionados, mas não pela dona. Sapatos e tênis jogados de qualquer maneira, na lavanderia, sem qualquer aviso prévio. Roupas que se recusam a permanecer(em) no armário, e não sei por qual razão preferem sempre a mesinha de cabeceira, o gancho do banheiro, o trinco da porta do escritório. Desorganização diária que ignora o - também diário - mantra, entoado ao filho e ao marido: "não deixem as coisas fora do devido lugar. Não baguncem. Isto não é aqui. Vá guardar, vá. Não é aqui. Isto não está no lugar certo. Não é aqui. De novo?" - E aí já é fácil encontrar uma gota de suor descendo pela sua testa, como quem refresca a própria aflição.

Não suporta intromissão. Não admite que decidam no seu lugar, quando lhe é inato o direito de reinar por ali (A mãe "dos outros" não é a sua, e tampouco a dona da casa. Sabe como é?). Não suporta intromissão, como disse. E é arisca, quando precisa, mas também muito doce. E quando menos espera, já vê outra xícara mal posta, um brinquedo debaixo do sofá, um lençol amassado às pressas, debaixo do travesseiro. Ah, mas com um detalhe. Tudo será sempre culpa sua. É duro. É isso. Cuidar dos outros e depois cuidar de si. Vai pro banho como quem lava a alma suja de toda a bagunça do mundo. Vai dormir desejando não lembrar de Chaplin e seus parafusos.

Foi diagnosticada - síndrome da mania de organização. O que fazer, doutor? Remedia-se? Não, não é nada. É só aquilo que dizem, bem sabe, do tango argentino.

sábado, 22 de janeiro de 2011

"O ano inteiro é sempre assim..."

Foi em um desses dias de longo exílio praiano, ao qual denominaram veraneio. Uma música ecoa na minha cabeça como trilha de uma alma muito, mas muito bem reacomodada no corpo. O ano começa com ares soberbos de paz e tranquilidade, de um egocentrismo não ordinário, mas completamente necessário diante do ano que passou, onde fui tragada pelos objetivos e sentimentos dos outros. Foi quando ouvi Bloco da Solidão - e apesar de, ao procurá-la depois na internet e encontrá-la lindamente na voz de Maysa, ainda a busco incansavelmente nos sites e não a encontro em outra versão. Pena. Por ora, a versão mais linda que já ouvi dela guardo para mim em vídeo, acompanhada por voz e violão, cantada por meu pai, na praia. Depois baixo o vídeo aqui, ou não.

Enquanto isso, a vida cheira a maresia, os pés se misturam à textura da areia, o paladar acumula sabores de família, ganho quilos irritantes, mas com temperos de redoma. Relendo velhos livros (O Apanhador no Campo de Centeio, dado por Glay no meu primeiro aniversário ao lado dele, e A morada do Ser, autografado lindamente pela autora, Estorvo e muito Bukowski.), rabiscados e frisados com grafite até o último espaço em branco em volta das páginas. Acordando com sorrisos e "bom dia" de quem amo. Dormindo somente com o barulho das ondas e o ronco do marido, numa casa de praia longe do barulho, fora de órbita.

Sad copy from my blood


É quase que deprimente sentir o cheiro daquilo que não é o seu feito, mas simplesmente a cópia barata da sua personalidade, dos seus traços literários e dos costumes vulgares e fúteis da sociedade moderna. Triste pensar que não criamos para inspirar ou desabafar, mas sim para que outras pessoas copiem descaradamente aquilo o que você faz. Penso que cada ser humano é perfeitamente provido da própria essência, sendo completamente desnecessário o uso da imitação, em qualquer que seja o seu nível de admiração ou coisa que o valha. Volta e meia uma pessoa vem e me diz: ei, presta atenção nisso aqui, aconteceu de novo. Se não fosse tão tolo, me irritaria. Mas mesmo assim. Daqui a pouco mudo de blog, como quem muda de morada para não ser observada por câmeras pouco originais. Fala sério...


Enquanto isso, apesar dos três dias de volta a Natal, retorno à tão querida praia para meu projeto de descarrego das preocupações da vida real. Pé na areia e pé na tábua, e lembrei até de uma música dos Tribalistas, ai como amei aquele CD.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

A Tonga da Mironga do Kabuletê


Vou-me, vou-me, vou-me. Levo marido e filho na bagagem e só volto quando água sanitária nenhuma recuperar meu branco da pele. Como roteiro de todo Janeiro, semanas maravilhosas na praia, à beira mar, com hífen ou sem, mas com muito gozo dos bons ares de 2011. Como trilha, o de sempre - The Police, Chico Buarque, Toquinho, Roberta Sá, Stacey Kent, Norah Jones, Kings of Convenience e as clássicas violonadas da minha família. Nada como um violãozinho antes do almoço, depois da praia.

[É, boy. Se eu não casasse com um músico não sei qual seria meu destino. Minha vida tem trilha...Affff..]

Mês de sossego, o filho brincando o dia todo e matando as saudades de mimi, família reunida, irmãs e brincadeiras que só a gente entende, guloseimas, baganas, caminhadas, banhos de mar, pé descalço o dia todo, violão, livros, CDs, dormir cedo, baralho, xadrez, war (glup). Need...

Quem quiser ir por lá, meligabaiber.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Glückliches neues Jahr. Schönen neues Jahr.


2011 para mim teve gosto de 01. Sim, o primeiro ano de uma vida novinha em folha. Espero que em 2011 a luz divina possa clarear vossas mentes para que saibam chorar nos momentos ruins com esperança e sorrir com firmeza na bonança e acima de tudo que tenham o discernimento para examinar cada ato agindo sempre com amor. Que a ira, a cobiça e a tolice sejam inimigos fracos para vossas mentes. A lei do retorno existe sim, por isso plantem sempre a semente do bem e faça do mundo o mundo que todos nos sonhamos.

Luz, paz e amor para todos.

(Texto by Helissazzzzzz)

Seu fingir dormindo, lindo


Nos lençóis da cama, bela manhã
No jeito de acordar
A pele branca, gata garota
No peito a ronronar
Seu fingir dormindo, lindo

Você está me convidando
Menina quer brincar de amar
Você esta me convidando
Menina quer brincar...

No escuro do quarto, bela na noite
Nas ondas do luar
Seus olhos negros, pantera nua
Vem me hipnotizar
Eu olho sorrindo, lindo!

Você está me convidando
Menina quer brincar de amar
Você esta me convidando
Menina quer brincar...

Você está me convidando
Menina quer brincar de amar
Você esta me convidando

(Noite e Dia)
(Brinde: Corações Psicodélicos)

sábado, 1 de janeiro de 2011

(A Poesia para Libra)


Equilíbrio
Henriqueta Lisboa

Estar não estando
no riso e no pranto.
Posso ir sem domínio dentro do possível.
Ser de si o oposto
sem deixar de ser
imóvel movente
que só por angústia
de tempo resvala
para achar o fluxo
do plectro em refluxo.
Pendente da sorte
do imã da força
dos próprios recuos, o pêndulo pende
mediante a tangência
de eflúvios
que estuam
adversos
à inércia.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Meu amigo misantropo


Meu querido colega de sala, aluno de Filosofia como eu, e não sei se ainda niilista, mas um agradável parceiro em algumas jogatinas de xadrez, nos intervalos das aulas. Dono de uma super inteligência e senso crítico. Jovem e de um senso filosófico extremamente promissor. Agora, com um blog repleto de personalidade. A quem gostar, como eu, cá está.


quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

turn out the lights yeaaaaah

When the music's over
When the music's over, yeah
When the music's over
Turn out the lights
Turn out the lights
Turn out the lights, yeah

Glay que não aguenta mais ouvir: Tocathedoooooooooors.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Narciso e o espelho colado


Lutar com as palavras - já dizia Drummond.

Admire-se ao prestar atenção em tudo o que ocorreu neste ano. Ponha as lentes de grau ou de lucidez, mas veja dia a dia sua marcha até aqui. Trezentos e sessenta e cinco, cada um completamente diferente do outro – dias com preguiça de terminar, mas com ares de mestre.

Fecho os olhos, suspiro. Um nó na garganta, lágrimas de exaustão. Passo a chorar bastante, assim, do nada. E concluo...

Não reclamo.
Não questiono.
Sem ironias.
Somente agradeço.

Meu Deus. O quanto agradeço.

Agradeço, neste final de mais um percurso, por todo o aprendizado. Em caixa alta, em negrito, gritado. Minha força tamanha de agora só foi possível pela dor incessante de cada dia de um ano tão cruel, a ponto de ter sido – disparado - o pior ano da minha vida.

Muito obrigada por isso, Chefe.

Obrigada pelo ano que me foi dado. Aprendi muito. Obrigada pela saúde que reconquistei, já perto da linha de chegada. Obrigada também por meu filho ter evoluído tanto, por ser esse menino tão inteligente e forte que ele é. Por ser divertido, tranqüilo e obediente. Obrigada por ter dado uma segunda chance a muita gente que precisou dela. Essa gente é muito importante para mim. Obrigada por ter me dado paciência e complacência, para mais um ano buscando o melhor para minha família, mesmo que ainda pequena. Obrigada por ter protegido minha casa, e pronuncio isso com tanto orgulho - meu lar, meu ninho. Sou dona de algo inenarrável. Nele, moram comigo dois homens, veja só, eu que sempre tive o conforto de dividir hábitos de organização com irmãs, moro agora com dois meninos que bagunçam, que viram minha sanidade de cabeça para baixo, mas que me ensinam tanta coisa, mesmo na clausura e na castração.

Obrigada pelas lágrimas que derramei e que ainda posso derramar. Muita gente não sabe a importância que elas têm ou sequer consegue derramá-las.

Obrigada por estar preparada para um próximo ano maravilhoso - este torço que seja egoisticamente bom e produtivo para mim. Prometo não me esquecer do que aprendi. Que eu tenha a companhia dos outros, e que eles me acompanhem, dessa vez, já que fui sempre a sombra das decisões deles. Quero um ano de voz ativa, posso? Acho que depois de 25 anos eu mereço pelo menos um dessa maneira, não é?



segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

FROHLICHE WEIHNACHTEN

O claro e o escuro de esperar e conquistar.




"Lights will guide you home
And ignite your bones..."

*
Dezembro tem um cheiro que nenhum outro mês tem. Cada mês, a propósito, tem o seu. Já pararam para sentir?

Este cheira a etapa cumprida, ciclo encerrado.
Feliz última semana de um longo ano, comprido, porém cumprido.
Lições e lembranças que amadureceram mais uma ruga no meu rosto.
Foi tudo tão exaustivo, mas com lições tão lindas...
Natal lindo, família.
O Gordinho arrumou a árvore sozinho...
...Mas todo mundo viveu o momento de renovação.

FROHLICHE WEIHNACHTEN.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Frohe Weihnachten für den Geist


Feliz Natal para a mente.
Como Ícaro não deixou o pai fazer suspense e contou logo o que era, ganhei antecipadamente o meu presente de natal. Snif! Ameiameiameiameiiiii. Acertou em cheio.
Louca para inaugurar. Alguém?
Ícaro seguirá o meu exemplo e aprenderá ainda criancinha. É algo fantástico, acredite!

Quando eu digo que às vezes meu boffy lê pensamento...

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010


"Porque há o direito ao grito.
então eu grito."

(Clarice Lispector)


...chegar em casa e ter colo para derramar as lágrimas.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Gott weiss ich will kein Engel sein


Wer zu Lebzeit gut auf Erden
wird nach dem Tod ein Engel werden
den Blick gen Himmel fragst du dann
warum man sie nicht sehen kann

Erst wenn die Wolken schlafen gehen
kann man uns am Himmel sehen
wir haben Angst und sind allein

Gott weiss ich will kein Engel sein

Sie leben hinterm Sonnenschein
getrennt von uns unendlich weit
sie müssen sich an Sterne krallen (ganz fest)
damit sie nicht vom Himmel fallen

Erst wenn die Wolken schlafen gehen
kann man uns am Himmel sehen
wir haben Angst und sind allein

Gott weiss ich will kein Engel sein

Erst wenn die Wolken schlafen gehen
kann man uns am Himmel sehen
wir haben Angst und sind allein

Gott weiss ich will kein Engel sein

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Soberania - Manoel de Barros



Naquele dia, no meio do jantar, eu contei que tentara pegar na bunda do vento — mas o rabo do vento escorregava muito e eu não consegui pegar. Eu teria sete anos. A mãe fez um sorriso carinhoso para mim e não disse nada. Meus irmãos deram gaitadas me gozando. O pai ficou preocupado e disse que eu tivera um vareio da imaginação. Mas que esses vareios acabariam com os estudos. E me mandou estudar em livros. Eu vim. E logo li alguns tomos havidos na biblioteca do Colégio. E dei de estudar pra frente. Aprendi a teoria das idéias e da razão pura. Especulei filósofos e até cheguei aos eruditos. Aos homens de grande saber. Achei que os eruditos nas suas altas abstrações se esqueciam das coisas simples da terra. Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo — o Alberto Einstein). Que me ensinou esta frase: A imaginação é mais importante do que o saber. Fiquei alcandorado! E fiz uma brincadeira. Botei um pouco de inocência na erudição. Deu certo. Meu olho começou a ver de novo as pobres coisas do chão mijadas de orvalho. E vi as borboletas. E meditei sobre as borboletas. Vi que elas dominam o mais leve sem precisar de ter motor nenhum no corpo. (Essa engenharia de Deus!) E vi que elas podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as próprias asas. E vi que o homem não tem soberania nem pra ser um bentevi.


Texto extraído do livro (caixinha) "Memórias Inventadas - A Terceira Infância", Editora Planeta - São Paulo, 2008, tomo X, com iluminuras de Martha Barros.



Parabéns ao maior poeta em atividade no país por seus 94 anos de paixão e doação à nossa Literatura. Amo!
19/12/2010

domingo, 19 de dezembro de 2010

mit Zucker, mit Liebe


Pela marca que nos deixa
A ausência de sol que emana das estrelas
Pela falta que nos faz
A nossa própria luz a nos orientar
Doido corpo que se move
É a solidão nos bares que a gente frequenta
Pela mágica do dia
Que independeria da gente pensar
Não me fale do seu medo
Eu conheço inteira sua fantasia
E é como se fosse pouca
E a tua alegria não fosse bastar
Quando eu não estiver por perto
Canta aquela música que a gente ria
É tudo que eu cantaria
E quando eu for embora, você cantará


Dezembro. Férias, família, meninos que arrumam e desarrumam a casa, sossego, estrelas, olhos fechados.

Brinde: Cinema, Leo e Bia.

sábado, 18 de dezembro de 2010

ein Buch mit sieben Siegelns


Não sou de contar segredos (me refiro realmente a segredos, ein).
Mas quando estes são os meus, uma vez ou outra não faz mal a ninguém.

...Especialmente quando estão diretamente ligados à minha alma, digamos assim. É o além-corpo.

Sempre que eu anseio por sair de órbita e enxugar os meus pensamentos, entrando no meu plano de espiritualidade, dou espaço ao meu compositor clássico favorito, Mozart. Isso é uma coisa que não saio comentando por aí. Até porque a fé anda tão banalizada – e tantas vezes esquecida – que os clichês sempre cheiram mais do que a sinceridade. Como eu dizia, não é algo que eu já tenha comentado com alguém. Na verdade até então ninguém sabia, embora eu já tenha mencionado ao meu marido, por exemplo, minha predileção pelo clássico austríaco (estou certa?). E ele não deve nem se lembrar mais, homens!.

Espiritualidade. É algo tão particular quanto o próprio pensamento – se não for externado, ninguém o ouve. Principalmente quando se trata de algo tão intrínseco, como é para mim.

Cada um tem o seu ritual de cura, de relaxamento, de extravasamento, de libertação, de encontro com a espiritualidade. Em alguns dias eu prefiro até caracterizá-lo como “exorcismo”, mas só por completa ignorância etimológica mesmo. - Tem a ver com o Bem, e não com aquele lá embaixo. - Cada um denomina como preferir. Cada um tem seu meio de escape. Uns fazem uso do incenso, por exemplo. Eis um artefato que sinceramente amo, mas que procuro evitar nos dias em que o bebê está em casa. Outros simplesmente deitam em uma banheira quente, acendem o que lhes for conveniente e relaxam (idem). Outros ouvem o seu CD predileto, outros bebem, outros vão à igreja, ou acampam. Outros dormem mais do que o habitual. Alguns preferem o silêncio absoluto. Alguns rezam, somente.

Eu ouço uma música enquanto rezo. É isso. A história dela, aí sim, fica sempre só para mim. Essa eu não conto, nunca. Mas desde então ela passou a ser meu campo de passagem e de êxito, para quando preciso externar meu lado – tão escondido, porém presente – espiritual. Não é fácil chegar à outra dimensão de mim.

Não somente à sua obra, me prendi especialmente a uma predileta. Foi amor à primeira “vista”, há mais de 15 anos. Apresento-lhes, finalmente. No “repeat” do CD, Clarinet Concerto: II. Adagio.

Ela me ajudou a redimir, a me consolar e a me reestruturar nos piores momentos da minha vida. É a trilha de fundo para quando rezo na maneira mais intensa que posso. É um peso das costas que dessa vez e sempre tentarei tirar, mas que ainda assim será história nas minhas lembranças.

Mas a fé ajuda.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

noli me tangere


Este sentimento não é o meu, não é meu. Sempre foi sentido por osmose, devo admitir. Não surgiu daqui de dentro - Veio de fora, para fora. Estou há tempos presa em uma gaiola fria, com as mãos amarradas ao pensamento..., este volta e meia castrado junto ao meu corpo, junto ao que sinto, ao que desejo, e que por sua vez nunca pôde veramente ter vontade própria, seguindo sempre outros passos. É difícil admitir, mas muito mais reconhecer. Enxerguei só agora. Minto. Enxergo desde o começo, mas mascaro.

Sacrifiquei coisas que não tinham culpa de nada por algo que me levou o último suspiro de alegria e juventude.

Que ano. Sorte que não caminho sozinha. Existe você.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

mitonarcisicoeabipolaridade


Vejo-me de relance no reflexo da janela do quarto, agora com planos de cortinas floridas. O que observo me agrada, mas não convém. Tudo ali, rapidamente, estava coerente – tudo fazia sentido. Chego a pensar que nem sempre o reflexo é condizente com a realidade do objeto. É essência? E desse modo caio numa das mais tristes conclusões que já me ocorreram. Quase ninguém gosta de ver-se por completo. Não me refiro ao físico. Não falo da beleza, do corpo, do cabelo penteado. Pena que você limitou seu raciocínio ao julgar isso. Falo do que de fato somos - interiormente; falo dos atos e dos pensamentos. Refiro-me ao que transcende tudo aquilo que imaginamos expor – tudo o que está oculto debaixo das nossas línguas, o não-dito, porém vivido. Temos medo da nossa verdade absoluta (essa, quase uma lenda), temos receio de conhecermo-nos inteiramente. É quase fatal. Isso me faz lembrar o mito de Narciso... Amo.

É tão difícil termos coragem de enxergar aquilo que realmente somos, sem máscaras, ali, diante do espelho – nossa consciência, nosso disfarce ao avesso. O reflexo de relance sempre foi o mais conveniente. Nossa memória seletiva, junto com nossas máscaras, delineiam o protótipo do que achamos que somos... O que eu posso dizer daquele que consegue enxergar além do espelho...? Você não existe, amigo. Mas, caso exista, compro sua vida. Troque-a comigo! Ou será que todos nós podemos, atravessando a noção do que há dentro da gente, enxergar além da miragem? Só sei que ali, no reflexo, eu vi felicidade. E ai de quem negar isso a si próprio.