quarta-feira, 6 de junho de 2012
gracias a la vida
[trecho de Poema dos Dons - Jorge Luís Borges]
Graças quero dar ao divino labirinto dos efeitos e das causas
pela diversidade das criaturas que formam este singular universo,
pela razão, que não cessará de sonhar com um plano do labirinto,
pelo rosto de Helena e a perseverança de Ulisses,
pelo amor que nos deixa ver os outros como os vê a divindade,
por Schopenhauer que decifrou talvez o universo,
pelo último dia de Sócrates,
pelos rios secretos e imemoriais que convergem em mim,
pela linguagem, que pode simular a sabedoria,
pelo esquecimento, que anula ou modifica o passado,
pelo costume, que nos repete e confirma, como um espelho,
pela manhã, que nos depara a ilusão de um princípio,
pela noite, sua treva e sua astronomia,
pelo valor e a felicidade dos outros,
pelo facto de que o poema é inesgotável e se confunde com a soma das criaturas e jamais chegará ao último verso e varia segundo os homens,
pelos minutos que precedem o sonho,
pelo sonho e a morte, esses dois tesouros ocultos,
pelos íntimos dons que não enumero,
pela música, misteriosa forma do tempo.
domingo, 3 de junho de 2012
Fairest of the Seasons
quinta-feira, 31 de maio de 2012
cotidiano
Ao invés do barulho do despertador comum, acordar com uma seleção de músicas prediletas. Levantar da cama depois de uma longa espreguiçada, colocar os pés descalços no chão e sentir o gelado do clima do começo da manhã. A franja no rosto, mas tudo bem. Dessa maneira, andar até a cozinha, tomar um copo d'água, colocar o leite para esquentar e fazer a mistura perfeita com café e adoçante, de modo que fique bem docinho. Entrar no quarto do pequeno e ver que ele já me espera com um sorriso lindo, bem grande. Tomar um banho quente e depois banhar o pirralho, vesti-lo com a farda e preparar a vitamina mais gostosa do mundo para que ele beba enquanto assiste ao desenho preferido. Organizar a mochila, revisar as tarefinhas, fazer check-in na agenda da escola. Preparar o lanche, sem esquecer da toalhinha.
Logo em seguida, a roupa já começa a ser remexida, bem cedo. O cheiro de amaciante começa a perfumar a casa, junto ao perfume que foge da cafeteira, à medida que abro a janela e o vento fresco entra pelo apartamento. Ligo o som, abro o material da faculdade, termino os relatórios, mas confesso que às vezes finjo que não preciso fazê-los e vejo algum filme bom.
Já é meio do ano e parece que a cada dia os dias são mais curtos, na verdade mais longos, as horas é que passam mais depressa. Como é possível? Já é noite quando me dou conta de que estou morta de cansada, mas doida que chegue amanhã de novo, para recomeçar os pormenores. Um banho quente, um creme doce e meias felpudas finalizam a noite. Filho limpo e cheiroso já deitado e dormindo. Agradeço por mais um dia de saúde e inteligência para ele. Sorrio enquanto me ajeito no travesseiro, agradecendo por tudo durante mais um dia bom. Peço tudo outra vez. O bom dia perfumado, as obrigações que dão dor de cabeça, a companhia do filho, as risadas irritantes da vizinha que quebram a minha concentração, a textura das pantufas, o sabor das gostosuras e o azedinho do suco de limão. E todo o resto, e sempre, e não sei como não percebem as peculiaridades dos dias.
quarta-feira, 30 de maio de 2012
Buarque em Natal - faz de conta que é parte I
Entre todas e tudo, quando tudo aquilo só parecia um sonho, ele cantou uma das minhas prediletas, cuja empatia se deu na primeira vez em que ouvi Chico Buarque, quando era criança. Desde então é a canção que me faz olhar para dentro, conversar com as idéias e perdoar-me, sempre, em letra e melodia. É sempre quando recomponho o pensamento e sincronizo todo o interior. Perdoo-me. Ontem, nessa hora, eu só consegui fechar os olhos e chorar muito, muito, muito. Consegui sentir a textura do meu travesseiro do meu quarto na adolescência, a cor da parede iluminada pelo sol da tarde, após a aula, o vento que o ventilador do teto faria no lençol e nas páginas dos livros que eu deveria estudar e procrastinei para a noite, a espera e a lembrança dos fatos de cada dia, os dilemas que me angustiavam e eu de repente esquecia, a paixão por minha família, o desenho que a fresta da janela fechada faria na cama daqui a pouco, formando um leque. O perfume doce que eu usava, a cor das meias de minha predileção, o cabelo descendo a cama até o chão, as camisetas sempre me cobrindo o corpo miúdo. E mais uma vez me equilibrei. Injetaram-me nostalgia mais uma vez.
É comum, embora raro, perdoarmos os outros. Mas poucos perdoam a si mesmos, e é essa vertente que carrego em Desalento, desde pequena. Não tem a ver com os outros, mas sim comigo. Eu nunca fui de interpretar algo da maneira aparente mesmo. Sempre levei para o lado B, digamos, aquilo que não é necessário mais ninguém captar. Toda aquela interpretação ao modo "português do ensino médio" nunca me foi suficiente. E por isso esse momento foi tão especial para mim, no show de ontem. Foi a vida dentro do sonho, sendo esse todo o espetáculo, sendo a vida o momento da canção. Aquilo que só eu entenderia. Aquele momento que ninguém tiraria. Poderiam ficar com todas as outras quase duas horas de show, nesse dia, pois só esta me bastava - a música que penetrou minha alma em muitos momentos do meu crescimento, desde criança. Em suma, perdoei-me, mais uma vez, pelas descidas durante a vida, pelos desalentos, e em cada vez que renovo o laço, renovo desde a passagem mais recente até a primeira, sempre em recapitulação, como sendo um prolongamento, uma bagagem completa, e sempre na verdade é, parafraseando o pedaço de Goethe e Fausto que carrego no braço, e relembro tudo mais uma vez, e hoje eu sou uma nova pessoa, de novo.
terça-feira, 29 de maio de 2012
replace
Melhor do que o hábito de escrever acredito que seja o de reescrever, movida pelo discernimento e pela sinceridade de sentimentos. Quanto mais honesto um pensamento, melhor para tudo e todos. Quando tudo se clareia, as coisas certamente fluem melhor. De sobressalto preferi reconstruir os pensamentos, talvez isso me ajudasse. Tudo está ao nosso favor, é só questão de saber reconhecer. Reler tudo e reformular as idéias, de modo que assim a inevitável interpretação alheia não me perturbe pela minha exigência de privacidade é importantíssimo. - pois assim foi. Tudo reescrito e repostado. Acho isso até um pouco irônico. Isso tudo de ter que reformular as idéias por causa da hermenêutica equivocada dos outros e coisa e tal, ser interpretada não como eu queria, mas de acordo com o mundo dos outros. Ainda mais aquelas pessoas que chegam por curiosidade, que nem são tão convidadas ou convidativas assim. Mas eu nem me incomodo mesmo. Mas se é assim, foi bem melhor pra mim, de qualquer maneira. Toda a Luz que existe me completou hoje, por alguns acontecimentos e por coincidência, e marco a reconstrução exterior junto à minha interior, aproveitando a inspiração. E depois falo da Luz, ou não. E fim.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Leben Geist
Naquele dia preferi deixar o carro na garagem, movida por alguma intuição que pendia à necessidade de caminhada. Embora eu andasse a passos longos, mesmo que não estivesse apressada, percebia a movimentação quase nula da rua. Encontrei dobrando a esquina da longa rua um senhor, já grisalho e muito distinto, vestido à moda antiga, perdido entre as calçadas, sem saber escolher o sentido certo de sua andada. Deu-me bom dia, respondi da mesma maneira. Parou ao meu lado, deduzi que ele queria falar algo. Assim, também parei. Perguntei-lhe o nome, e ouvi alguma coisa que meus ouvidos não conseguiriam traduzir. Dei de ombros, sorri, e ele me respondeu com um sorriso. Olhou em direção ao meu pulso e viu que ali havia um grande relógio dourado, e então me perguntou se eu não tinha medo de que me roubassem o tempo. Sorri. Mal deu tempo para que eu respondesse e ele perguntou-me as horas, como quem não quer perder a viagem. Eu me lembro - disse ele -, lembro bem de quando ela tinha a sua idade. Pedi-lhe as horas, recebi em troca um sorriso, café todas as manhãs, ternura, três filhos, alguns netos, uma boa casa e grandes lembranças. Hoje, veja só, eu estou longe de todos eles, mas não tem nada. Hoje, também, estou perdido. Amanheci com a liberdade de ir aonde eu quiser, mas também com saudade de algo que jamais voltará, porque já foi vivido. Resolvi começar por aqui. É o começo.
Mesmo que aquilo por si só já tivesse me emocionado, não entendi a razão do desabafo. A arbitrariedade de tudo o que sentimos necessita sempre da percepção que lhe caiba. Ainda assim, permaneci atenta. Enquanto ele tirava o lenço do bolso para enxugar a testa, disse-me que daqui a pouco choveria, e que seria melhor que eu voltasse em casa para fechar as janelas, assim não molharia o tapete da sala. E concluiu: nem todo mundo cultiva o pensar numa sala onde há televisão. Sorri. Eu vi que nele havia algo de empolgação e frescor, como quem sobe as escadas de uma escola nova, no seu primeiro dia de aula. Era como se fosse um novo dia de uma vida nova. Perguntei sobre seus filhos. Não que eu me interessasse pela vida dos outros à primeira vista, mas sim porque achei que pelo fato de ele ter mencionado, achei que haveria relevância para o dia dele se por acaso alguém compartilhasse a lembrança. Confuso, ele resumiu as sílabas. Olhou-me com todo o pesar do mundo contido em meio às suas rugas, como se, melancólico, relembrasse seus quem sabe oitenta e alguns anos, mas não estava triste. Ao mesmo tempo, expressava perfeitamente no rosto todo o peso de sua sabedoria, coisa de quem já viveu tanto que por si só já é grandioso. Foi tudo muito lindo. – continuou - Uma longa vida. Um traço perfeito. Ame seus personagens, minha filha, ame seus personagens. Eles não vieram à toa.
Sorri, transparecendo carinho, e era só o que eu fazia, não sei dizer por quê, e poderia ter respondido a tudo isso, mas não sei por qual razão apenas sorria. E enquanto ele falava e admirava as flores que saltavam do muro de uma casa do bairro, percebi que não se preocupava com as deformidades da calçada. Andava sem olhar para o chão, sem apoio, bengala, ou coisa que o valha. Era como se uma leveza atípica lhe tomasse, como um enfermo que de um minuto a outro ganha vida em suas pernas e decide atravessar a praia. Senti-me uma tola desdenhando a paisagem do céu.
Lembro que logo depois começou a chuviscar. Ele continuou: Sei que cada dia é um mestre. Sei que nem sempre é fácil o fato de pensarmos. É, o pensamento é uma longa viagem. Da hora que acordamos à hora de ir dormir. É complicado, você sabe, pensar... temos sempre que tomar decisões, decidir por isso, por aquilo, mesmo que a gente não perceba, já está decidindo alguma coisa. É o verbo da vida, decidir, sabe. Você decide o minuto de obedecer ao despertador, decide a quantidade de xampu, decide a cor das meias, decide. Mesmo que seja para decidir entre manteiga e geleia, água e chá. Mas a gente tem que resolver o tempo todo, e isso deveria cansar, não é, mas não cansa, é incrível. E nisso cultivamos vínculos, construímos nosso acervo de memórias e companhias, por toda a vida. Meus amigos e minha família, do mesmo jeito é pra você. É desse jeito. Temos os dias em que tudo é delicado demais, com muito pouco a linha se parte. Há dias mais suaves, e por aí vai. Mas há o grande dia em que a gente simplesmente some, acabou o tempo, acabou a hora. A gente vai embora, e é impossível voltar. Aí a gente lembra de tudo como um filme, e vê um monte de coisinha que antes não tinha percebido, mas que ainda assim vivenciou, e sente saudade e fica feliz por ter finalizado as metas. E você pensa que só porque há saudade significa que algo ficou inacabado? Não, minha jovem, a gente sempre vai na hora certa. TUDO vai na hora certa. Acho que você entende o que é isso. Você aprendeu bem, é, você sabe aprender. Você será muito feliz, porque decidiu as coisas certas. Se algum dia lhe sobrarem dúvidas, lembre-se disso. Sei que cuidam de você. Cuidam muito bem. Mas me diga, você se lembra que dia é hoje?
Não preciso dizer que simplesmente sorri. Acho que naquele dia eu acordara sem muita agilidade para pensar em respostas, apenas para me admirar com o inexplicável. Era como se eu conhecesse aqueles olhos. Era como se eu fosse a moradia daquelas palavras. Mas não sabia por quê. Tudo soava como folhear fotografias antigas. O que era chuvisco se transformou em pingos grandes - começava a chover forte. Olhei para o céu e até onde meus olhos conseguiam enxergar só pude ver cinza. Baixei a vista e já ia esboçar um “ih, e num é que vai chover?”, mas o senhor simplesmente havia desaparecido.
Olhei para o relógio e percebi que ele estava parado no dia 23. Procurei o botão para corrigir a data, mas acho que ele havia caído. No chão, encontrei um papel de confeito, desses antigos, redondos, e me lembro que eu comia na casa dos meus avós quando era pequena, e lembro que era aquele que fazia toda criança se engasgar. Lembro que meu avô adorava. Lembro que comíamos sempre juntos, acho que nem fabricam mais... E, imediatamente, com um nó na garganta - não pelo confeito, mas sim pela memória, lembrei que ontem, dia 23, foi o aniversário de morte do meu avô.
segunda-feira, 21 de maio de 2012
tempo que cuida
O tempo é bom e o percurso, mesmo que sejamos o motorista da nossa própria vida, é maravilhoso. Basta seguir os direcionamentos corretos. Vontade de guardar tudo em vidrinhos, em pinceladas, em melodias, no vaso de flores, na prateleira da sala, em todos os cantos aos quais me refiro - para tudo novo outra vez, porque é tudo aprendizado, embora eu lamente e muito o fracasso dos outros, mas ainda assim desejando a todos o que quero para mim: o que convém ao sorriso. Contemplo as chances que me visitam por mérito, sim, mérito. Afinal, a vida se resume em fazermos por onde adentrarmos a vida dos outros, sejam eles amigos, familiares, amores, amoras, flores ou cerejas. E só deixo que visitem a minha vida se acaso demonstrarem que têm por onde eu lhes devolver merecimento. Temos que mostrar, demonstrar, retornar - dia após dia - que valemos à pena uns aos outros. Alguém tem que provar que merece bater à sua porta.
No abajour que não se acendeu vejo o reflexo de coisas novas. Vejo sombras, vejo flores. Fogos de artifício, de dentro para fora - músculos que estalam na química da epiderme; Muito vento em volta, gosto de mel, limão, café, morango, e o amargos dos cigarros, e da ausência deles, e a ternura dos goles de vinho ou o suspense das doses quentes do whisky, ou tanto faz, se é tudo novo ou se vem devagar - ou só amanhã, ou só depois, mas é, como se fosse uma outra capa - vermelha, azul, preta, amarela... - para outra tempestade, nova, ainda que com suas estações que lhe acompanham no novo ciclo.
quarta-feira, 9 de maio de 2012
When I get to the bottom I go back to the top of the slide
mil livros e mil mundos
planos que nada combinam com as horas de ontem, mas que acolheriam e sempre acolherão o mundo
o relógio parado
o tempo em inércia
como se nunca tivesse passado
mês após mês,
nove
oito
sete
seis
cinco...
mais.
Somos as nossas atitudes e também as que os outros não tomam -
há dia de esquecer, há dia de lembrar.
há dia de se reencantar.
terça-feira, 8 de maio de 2012
Die Zukunft ist richtig, per Gesetz
De uma hora pra outra apertaram alguma espécie de botão, desses que regulam a gravidade por onde pisamos. Comecei a flutuar dentro da boa notícia recebida, como quem se joga no vento, como um sim em sinfonia, como uma gaiola destrancada, como uma bolha de sabão, longe de estourar, longe de ser efêmera e perto, bem perto de ser o começo da próxima jornada. Os pés no chão eu não esqueço. Mas por ora só flutuo. De um canto a outro, equilibro um sorriso desengonçado, me perco entre a ansiedade e a ânsia, mas já é tudo tão concreto que só sei pular. Estudo nunca é demais. Bora lá.
Feliz!
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Because the wind is high it blows my mind
Apaguei a luz do abajur, mas ainda assim o sonho veio. Encontrei-lhe, entre os cheiros, bem mais perto do que esperava. Concluí coisas que antes preferiria evitar. Por causa do vento forte, minhas idéias se misturaram. Solucei antes de abrir os olhos, vi que entrei bem mais fundo do que pensava. E o céu não deixou de ser azul. Engoli a saudade no amargo do café, disfarcei com pedaços de tangerina e saí para caminhar - mais distante do quarto eu escondo a vontade.
quinta-feira, 3 de maio de 2012
here comes
A vida oscila como um pêndulo de chumbo, alternamos entre os estados de espírito, desviamos o corpo da força contrária. O Homem quer terra à vista, mas se recusa a gastar forças para nadar até a margem. Termina por afogar-se no nada. O conforto das almofadas impede-nos de movermos as pernas. As palavras são flechas, salvam ou matam. Torno-me o cristal que com muito tempo se lapida, mas dificilmente se quebra. Reluzo cores e formas, giro como um caleidoscópio. No sofrimento da ostra nasce a beleza da pérola, a dor do parto da existência recepciona a verdadeira vida, a cicatriz coça para depois sarar. Para germinar a rosa, há de lembrar que toda beleza é frágil, e que por isso os espinhos são necessários para a sua proteção. Da garganta à boca percorre a voz um longo caminho, recebendo ordens do pensamento. Tal como os músculos, é pela repetição que fortalecemos uma idéia. Pela falta de estímulos, a mesma acaba por atrofiar. Há de girar de acordo com a grande roda. Antes a polissemia das vírgulas ao decisivo ponto.
LUTO - Tia Nerina
Parte da nossa vivência existe naqueles que fizeram parte da nossa história, concretizando os degraus familiares. Quando um elo se rompe e é chegada uma despedida, existe a certeza de que a partida é o recomeço do Outro. Migramos apenas, um a um, para outro lugar. Como páginas grossas de um livro que jamais termina, formamos nossa existência apoiados nos familiares - crescemos e multiplicamos o mesmo sobrenome. Lembramos com carinho e despedimo-nos de quem já cumpriu o percurso, guardando saudades e salientando o afeto construído. A memória é o consolo do adeus - a vida lapida a morte, a morte lapida a vida. A tristeza e as lágrimas se convertem em preces, logo mais tudo recomeça. A saudade começa hoje.
“Nascer, morrer, renascer ainda e progredir sempre, tal é a
lei.”
[Allan Kardec]
[Allan Kardec]
"Morrer não é acabar, é a suprema manhã."
[Victor Hugo]
quarta-feira, 2 de maio de 2012
Quiet is the new loud
Há dias em que nos preenchemos de pequenas coisas para não repararmos no grande buraco negro das grandes faltas. Fazemos da verdade um completo segredo (porque não convém a quem, mesmo?!). Os mesmos atores incorporam novos personagens, no seriado já existente. Como um faz de conta das próprias vidas, como o tempero que excita os paladares triviais. É como se víssemos as mesmas coisas de sempre, mas de ponta cabeça. Outra perspectiva, e não sabemos se enganamos a nós ou às outras pessoas do enredo. Basta fechar os olhos e tudo pode acontecer. Um cafuné, um filme, frapê de café, almofadas, vento frio, pão de queijo, cerejas e vinho, tragos amargos e chás vermelhos, perfumes atravessadores e timbres desconhecidos no primeiro contato. Tato e arrepios. Ligações e mensagens disfarçadas. E só no cafuné já faria toda a diferença. Basta imaginar.
segunda-feira, 30 de abril de 2012
you only live once
Aceitando de uma vez por todas que tudo é inevitavelmente espiral e cíclico, chego a supor que é mais amedrontador do que parece saber que quanto mais eu fujo de algo mais perto chego ao início. Reinicia-se toda a história, principalmente o prefácio. Isso de fato me assusta, sinto medo. Quanto mais o tempo passa, mais depressa voltamos ao começo de tudo, paradoxalmente - as linhas sempre se cruzam, por mais que as façamos paralelas. Está tudo sempre fugindo ao nosso controle, ao dos outros, ao de todos - não sei se por culpa nossa ou se por ironia mesmo. Tenho medo do futuro, porque ele se assemelha muito com o passado. Antítese das causas e consequências. Canso as pernas, corro rápido, pulo fogueiras e desvio as mesmas paisagens, mas voltamos sempre ao cenário de outros dias. E quanto mais veloz conseguimos ficar, mais antecipamos a linha de chegada. O começo é o fim, e o fim jájá se inicia mais uma vez. Paredes de só uma porta - de saída e de entrada. Uma só janela para ventilar a casa e para jogar-se, se isso for preciso. Quanto mais eu corro, mais dou a volta no globo de nós mesmos, chego ao princípio e afloro todo o constrangimento de reconhecer os nossos mesmos sentimentos, e agora eu só preciso saber o que fazer com isso, além de engavetar tudo da maneira mais segura. Devo desacelerar o passo, se já sei aonde isso vai chegar. E assim fica. Reduzo o percurso e, sem ao menos perceber, involuntariamente aumentamos a velocidade, por nunca termos aprendido a usar o freio.
Embora tudo isso pareça desconfortante, não me preocupo. Junto à doença vem sempre a vacina, sobrevivemos graças à dicotomia de todos os dias. A saudade não sobrevoa nosso nível de autocontrole, vem sem que percebamos. O equívoco maior está em não reconhecer a cena tal como ela é e acabar por interpreta-la e utiliza-la de modo errado. Não sei se apoio o ombro em Heráclito ou em Parmênides, mas sei que tal como o rio flui, ele jamais permanecerá o mesmo. Somos todos águas turvas ou calmas de um rio. Fluímos., mesmo que retornando à mesma órbita. Voltar para o mesmo lugar não significa ser basicamente a mesma personagem, ou possuir o mesmo histórico, roteiro ou contexto. Sentir o mesmo sentimento nem sempre faz disso um déjà vú em sua essência. Não dói. Alto lá no cartesianismo, ele não convém sempre. As águas voltam à nascente, mas não na mesma propriedade, já disse... Defrontamo-nos com as mesmas descobertas, mas não como um dia já foram. Redescobrir é o segredo. Hoje é tudo outra coisa, a roupa que nos veste é a que nos cabe, e não a que já usamos e já desbotou. Há de se renovar sempre, de acordo com as estações.
Antes de causar qualquer assombro, enfatizo as vírgulas. Há sempre a interpretação desvirtuada ou direcionada a um pensamento já concebido, mas não criemos pânico. Não é nada disso. Entre os dedos temos uma arma em potencial - somos capazes de transformar uma coisa em algo melhor. Fazemos disso um grande presente para nós. Afeto e carinho jamais serão desperdício. E soube que foi inventada a amizade e suas vertentes. A saudade é um dom.
A alma humana avança constantemente, mas em linha espiral.
(JOHANN WOLFGANG VON GOETHE)
sexta-feira, 27 de abril de 2012
Quando a hermenêutica passa raspando
Quando a limitação da própria realidade limita também a capacidade interpretativa de uma pessoa, muitos mal-entendidos podem vir à tona. Todo esse desespero defronte a tela me faz pensar que alguém está vindo ao lugar errado, e não sou eu essa pessoa. Conclui-se, portanto...
É um lema constante que repito a quem precisar dele: tudo nessa vida é pura questão de hermenêutica. Posso falar de mil coisas, mas se você quiser, vai entender só uma. A que lhe convém, ou a que lhe dá medo, a que lhe ameaça, a que lhe enaltece. Além da pontuação no devido lugar, e creio que dessa eu faço bom uso de acordo com a minha linha de raciocínio, há também todo o leque de sentimentos subjetivos que influenciam uma mesma frase. Eu direi uma coisa. Você, sem convite, virá e entenderá outra, como lhe convir. E a partir daí a responsabilidade já não é minha. Conclui-se, portanto...
Posso pouco me dar nomes e faces, e assim manter meu afastamento das lentes altas, mas se me expresso aqui ou ali, não me julgue pelas poucas palavras. Conhecemos alguém no confronto pessoal, e não nos parágrafos de realismo ou ficção. Há arbitrariedade na minha exigência de privacidade, eu sei, mas também não pedi sua presença no recinto. Aquilo que é público encara o dilema de estar sujeito ao julgamento dos desconhecedores, e me preocupo se por acaso eu vier a prejudicar alguém que se joga em precipício de raciocínio. Se eu falava de qualquer outra coisa que não era propriamente o seu tópico pseudo substancial, só peço licença. Eu falava de coisas que certamente não dizem respeito a você, e sim às minhas personagens. Conclui-se, portanto...
120km/h
No espaço de tempo que separa um dia do outro todas as coisas pensáveis e inimagináveis podem acontecer. Não é preciso mais de um minuto para que a decisão que adentra o nível mais importante da sua vida seja tomada - durmo em um mundo, acordo em outro completamente transformado sem piscar os olhos. Na virada dos números ou no deslizar dos ponteiros basta uma frase concluída com a devida pontuação e tudo muda. É a dinâmica da realidade, a realização dos objetivos propostos. Estranho olhar para trás e não ver nada conveniente ao agora, apesar de ser tudo como sempre foi. Incrível define a passagem do minuto seguinte. Depressa demais os sabores e as idéias se formam no palato, e já crescem, e já somem, e já são lenda, e já são outra coisa. A vida é doce, depressa demais. A velocidade é diva. A coragem que me foi dada de presente me ergueu ao novo batente, sem que eu me desse conta, degrau soberano de concreto e não de nuvem, meu futuro finalmente desenrolado e desvelado para compor quem eu sou, além da Filosofia, além das Letras. Vem algo mais agora. O nó do laço. E no próximo minuto, e no outro, e no seguinte, vem sempre mais. E então não contenho a risada de ansiedade, tudo novo.
quarta-feira, 25 de abril de 2012
outofspace
Senta num banco de praça como se conhecesse tudo do mundo, rasga o papel da bala e rascunha um pensamento vago, fala da hora, da chuva que molhou os pés, solicita atenção e relembra uma notícia. Tudo tão recente e ao mesmo tempo tão antigo, e é como se eu não estivesse ali, e é como se eu não fosse, como quem nunca foi, jamais existi - nada daquilo é verdadeiro. Nem estou lá. Nunca nos conhecemos. Há profundidade em outro tom de azul, não nesse.
segunda-feira, 23 de abril de 2012
21 de Abril
No dia em que se comemora a Liberdade como entidade, transpõem-se o sim e o não. Lembranças são reformuladas como páginas de um álbum, embora as fisionomias já tenham mudado ao longo dos dias. Um sorriso num canto do rosto, uma lágrima no lado oposto. Memórias de anos dourados - misturam-se ao gelo, oscilando como extremos. O velho caleidoscópio de sentimentos desnorteia, metodicamente, o equilíbrio da racionalidade, tanto quanto a ventania forte que se deu ao amanhecer. Voou o cabelo, misturaram-se as interjeições. Há de se limpar a poeira, há de lidar com os vestígios. Inevitavelmente, tudo beirou o sensível, a sinestesia misteriosamente encheu-se de velhos cheiros, a saudade se assumiu presente e fez frio, muito frio. Confrontei a vulnerabilidade. Quando o um uniu-se em dois, em toda a sua dimensão de paradoxo, dividiu-se o dilema de dar um passo à frente e 5 para atrás. Anos concorrendo com meses - vidas contrárias que quiçá já não se encontrem e laços de cetim que jamais se desfizeram. Muita saudade. Um trago, uma dose, recordações e muita serenidade. Tudo que vai, leva consigo uma razão que se justifique. Tudo que fica tem um porquê. E aquilo que volta, há de voltar por si. A minha crença se baseia na propriedade - aquilo que nos é dado, ao longo do nosso percurso, levamos com a gente. O que não for, deixamos no meio do caminho. Serenidade é a chave da nova porta. Saudade é o que tenho pra hoje, como rima.
quarta-feira, 18 de abril de 2012
I am the mask you wear
As decisões e suas conseguintes atitudes definem o homem tanto quanto suas roupas, sua voz, seu cheiro, seus traços, suas idéias. A falta delas é um grande problema. A deficiência das mesmas - o meio termo - torna as coisas mais difíceis ainda. A eterna espera do bom funcionamento do Outro vai além do sustentável, resta o abstrair. Faltam atitudes, sobram espera e adiamento. E assim engolem mosca sem que a culpa seja nossa. O ser humano veio ao mundo com todas as ferramentas, exceto aquela mais necessária - a concepção e absorção da existência - e permanência - do Outro, seu semelhante. Hoje, eu roubaria toda a misantropia do mundo só para mim. E doaria coragem a quase todos.
Somos monstros enrustidos em faces de traços finos. Seres irreconhecíveis da mesma espécie, mais, e sempre, do mesmo, habitando uma completa e interminável Torre de Babel. As vozes que não se cruzam, os sons que não se decodificam, senhas e signos jamais decifrados. Estranhos da mesma coisa, do mesmo lugar, do mesmo destino. Poeira que não reconhece poeira. O tempo passa e viramos história.
No mais, atendo o celular e reconheço a voz de sempre.
Se isso já basta, eu não sei, mas chego a desconfiar que já é um grande bom indício de civilização...
terça-feira, 17 de abril de 2012
always there
You walk into the room
With your pencil in your hand
You see somebody naked
And you say, "Who is that man?"
You try so hard
But you don't understand
Just what you'll say
When you get home
Because something is happening here
But you don't know what it is
Do you, Mister Jones?
With your pencil in your hand
You see somebody naked
And you say, "Who is that man?"
You try so hard
But you don't understand
Just what you'll say
When you get home
Because something is happening here
But you don't know what it is
Do you, Mister Jones?
quinta-feira, 12 de abril de 2012
The pattern of moonlight on the bedroom floor is a cold fire
Se me bate à porta e ressuscita as aspas, se me cheira a aura e me diz sobre o vento, se me olha nos olhos e não contesta a maldade dos outros, recebo o buquê de saudades vermelhas, aceito o frapê de café, meu favorito, como também a surpresa da passagem. A fantasia é a mais real das suposições. A amizade é o triunfo dos discernidores. Corrente e vínculo - coisas que se transformam. Tudo tão cíclico, mas tão imprevisível. E tudo onírico, se pararmos para pensar. Apreensiva e ponderada, trago, trago, trago – e não sei para quê inventaram o pudor, mas sei que os vícios se fazem, ano após ano. Os retratos trarão a serenidade que procrastinarmos, pois somos humanos, mas não precisamos da angústia. Empresto-lhe o sim e entrego-lhe um sorriso de afeto, compartilhando minhas raras horas de sono, não é época de nada, mas é tempo de brisa. As coisas se transformam, brindemos, e essa é a certeza vaga que aprendemos ao longo da vida. Há carinho para todo o sempre, basta cultivarmos. A compreensão depende de dois pólos, um que liga, outro que recebe. Na vulgata filosófica, Heráclito é o pensador do "tudo flui" e do fogo, que seria o elemento do qual deriva tudo que nos circunda. E eu concordo. Ligo o som e vou com calma, porque é hora do rush.
quarta-feira, 11 de abril de 2012
ch ch ch changes
Eu mudo o rio, mudo de planeta, mudo a estrada e mudo o sentido. Mudo minhas dúvidas, mudo as certezas, mudo o conhecimento e mudo os compromissos. Mudo de nível, mudo os ares, mudo de opinião e mudo a frequência. Mudo de país e mudo sem piscar. Mudo a trilha, mudo o tempero, mudo as cores e mudo os móveis de lugar. Mudo as teses, mudo de formação, mudo a metodologia, mudo os critérios. Mudo junto com as mudanças, mas não muda a minha felicidade.
segunda-feira, 9 de abril de 2012
thosefantasiesofmistakes
Tentar ser o que não é – por dentro, por fora - é a perda de tempo dos tolos. Viver o que não lhes pertence. Máscaras que não duram, formas que não se encaixam, tons que não realçam, timbres que não penetram os sentidos. Valores que não enobrecem. Pessoas que desperdiçam os minutos, na busca de algo que jamais virá - a superficialidade do amanhã, incerto e sem propósito, se o agora é tão pesado, tão complexo e tão palpável. Há de ter tempo para digerir. Seja perto ou longe, buscar para si aquilo que não convém é assinar a própria carta de escravidão, quiçá de ignorância, ao invés da alforria de ser livre dos próprios pudores e principalmente das próprias falsas esperanças. Os falsos desejos escravizam. A liberdade que caracteriza o autoconhecimento, embora paradoxalmente um pesar, é imensurável.
Tenho gosto de café com leite na boca, mas não me esqueço do amargo das batalhas. Tenho completo tesão por elas, pois descobri que sou quase imune a qualquer lamento, visto que comemoro cada tropeço mais do que as vitórias. E que são muitas as vitórias... Respeitosamente, deixo para trás o que não quero. Apresento como doação a quem se envaidece com aquilo. Tenho nuvens nos pés e a paz de não carregar comigo qualquer fardo que eu não precise transportar. A cruz que se depara com a nossa força é só e somente aquela que nos acrescenta, nenhum miligrama a mais. Ao invés de buscarem solução, as pessoas buscam mais e mais problemas.
Viver, gozar, sentir, arriscar, bater o pé por razões concretas que mudam totalmente o sentido da viagem – isso sim me definiria.
sexta-feira, 30 de março de 2012
das ewige Gleichgewicht
O sétimo signo do Zodíaco marca a fronteira entre o mundo individual e particular - que começa em Áries e termina em Virgem - e o início da vida na coletividade. Libra simboliza o contato com o outro por meio da fluidez, da justiça e do equilíbrio nas relações, em que mais vale a harmonia do que os dotes da pessoa com a qual se relaciona. Como um signo que marca mudança de estação (cardinal), é um dos que movimentam a vida. Aqui, o movimento é primaveril, no hemisfério sul. Como signo cardinal, prefere viver com movimento e detesta a mesmice.
Libra é um signo mental. Gosta de florescer, fazer arte e equilibrar, daí seu símbolo ser a balança, que procura harmonizar até os elementos mais diversos. Para fazer isso, é preciso julgar e avaliar, mas o libriano teme o julgamento e hesita, pois precisa ser equilibrado e tem medo de se enganar.
Libra identifica a natureza sutil, o meio-termo, a beleza e a justiça, e vem daí sua inspiração nas artes. Este signo sociável procura se realizar por meio de sua relação com as pessoas que o cercam. Jovial, simpático e generoso nas causas que abraça, o libriano é propenso ao acordo. Gracioso e adaptável, ele busca o refinamento, ao contrário do signo que se opõe a ele e lhe é complementar: Áries, a força do eu.
Na saúde, Libra rege os rins, um dos filtros mais importantes do organismo. Doenças relacionadas a estes órgãos implicam no medo, que destrói o equilíbrio desse par, pois Libra pensa o mundo em pares.
Todas as profissões relacionadas com as artes e que possam ser executadas sem competições têm a ver com este signo (Libra é frágil na hora de fazer valer seu ponto de vista). Diplomacia, artes plásticas, música e direito são composições que Libra pode fazer em uma mesma vida, com todo o sucesso.
Sensibilidade e justiça estão entre suas preocupações. O nativo deste signo procura construir uma vida agradável, onde possa se cercar de gente que entende seus valores e sentimentos. Por causa de seu espírito voltado à cooperação e de seu senso inato para a arbitragem, pode tornar-se um advogado de valor, principalmente nos assuntos ligados à cultura, às relações externas e à vara de família.
No amor, Libra resplandece. Muito sensível à beleza, inclusive a física, evita a paixão desenfreada, buscando o equilíbrio. Para isso forma contratos, propõe acordos, atende e é gentil. O libriano quer compromisso e irá fazer de tudo para conseguir isso, mas sempre respeitando seu profundo senso de justiça e igualdade.
Seu elemento é o Ar; suas pedras são a safira, a turquesa e a turmalina rosa e verde; seu metal é o cobre; suas cores são o azul e todos os tons pastéis e profundos, agradáveis ao olhar.
M-E-D-O de quem me conhece tão bem assim. Ponto a ponto.
E é isso.
Ufffffffffsssssssss
Go.
segunda-feira, 26 de março de 2012
run kika run
Das horas passadas, do tempo que voa, das fotos guardadas, do sono adiado, do sorriso embutido... Muita pressa, muita alma, muita vida, e o mundo é uma ilha - a vida é doce, depressa, depressa demais. Não há tempo de revisões, é tudo esboçado e vivido, simultaneamente. Um clichê de esperança. Agradeço a quem? A mim? A Deus? À minha família perfeita? Agradeço a tudo que respira, a tudo que vive - vivo em função disso. Agradeço ao inteligível. Pude engavetar as idéias. Agradeço à metafísica das interrogações. Pude concluir sem etapas. Feliz, feliz, feliz. Ando em passos largos a maratona dos meus sonhos - sou ponto e vírgula. Somente.
domingo, 25 de março de 2012
body, love and soul
"Você nasceu no lar que precisava, vestiu o corpo físico que merecia, mora onde melhor Deus te proporcionou, de acordo com suas posses, possui os recursos financeiros coerentes com suas necessidades. Nem mais, nem menos, mas o justo para as tuas lutas terrenas, seu ambiente de trabalho é o que você elegeu espontaneamente para a sua realização, teus parentes e amigos são as almas que você mesmo atraiu, com a sua afinidade. Portanto, seu destino está constantemente sob seu controle. Você escolhe, recolhe, elege, atrai, busca, expulsa, modifica tudo aquilo que te rodeia a existência. Seus pensamentos e vontades são a chave de seus atos e atitude... São as fontes de atração e repulsão na sua jornada vivência. Não reclame nem se faça de vítima. Antes de tudo, analise e observe. A mudança está em suas mãos. Reprograme sua meta, busque o bem e viverá melhor."
[ via Espiritismo Kardecista ]
quarta-feira, 7 de março de 2012
bleu
O segredo de tudo, o mistério maior, a razão do alento, se por acaso o doutor não lhe recomenda o tango argentino e se a você, como a mim, não convém a estupidez do ilícito, está em entupir-se de arte, alimentar-se de arte, nutrir-se de arte, deixar-se levar pelas partes e sequências, vogais e cores, deixando que penetrem os timbres, levando-se pelos tons entre acordes, na força do tempo e das vozes.
Doses antes das refeições, antes de dormir, antes de pisar fora da cama, antes de pensar em pensar, antes das vírgulas... e, alimentando-se de nãos, convém aumentar a porção, porque não há tempo a perder, e porque a arte cura a loucura, analgésico da dor de viés, dos ossos dos braços que batem incansavelmente pelas beiradas das portas. Cura a fome, cura a angústia e também a cólera de não sentir-se preenchido. Cicatriza a invisibilidade dos que se sentem sozinhos na multidão. A quina da parede no meu cotovelo. Os choques que necessitam de cor. O vazio. O silêncio.
A arte faz como brinde as letras, os versos, a minha Filosofia, a minha verborragia que, criteriosamente, retiro das prateleiras e trago para dentro de casa, afim de amortecer soluços e saudade das encarnações passadas que mais soam como o ontem. Vejo como o tempo passa.
A arte reinventa. Refecunda. Germina o refazer. Na música, na dúvida, na polissemia e na cor, em poesia ou em prosa, em pensamento ou empiria, a arte me cortou a fatia de adeus, a falta de rima, o excesso de agoras. A arte alimentou meu gosto de morango na boca.
sexta-feira, 2 de março de 2012
Eleanor Rigby
Minha preferida. A obra que envolve os arquétipos de solidão, do vai-e-vem dos dias, dos encontros dos que olham e não enxergam. Daqueles que se encontram para enterrarem uns aos outros, mas que não estão interligados verdadeiramente. Da retórica vazia de significado, das lembranças arquivadas pela metade. Dos que se observam para julgarem todos os que se contrapõem, mas sem lucro e sem crescimento; usam-se e prosseguem nas trilhas individuais. Falam para ninguém ouvir. E no fim, e tão somente no fim, apenas enterram uns aos outros. Atrás da cortina de mil pessoas há solidão em cada uma delas.
complexodeboneca
voltei ao nomezinho do meu primeiro bloguito, idoso, pioneiro, precursor da verborragia até os tempos atuais, rá
(pegadinha do malandro)
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
Quiet is the new loud
Ninguém está imune à pele da hipocrisia, nenhum se salva de provar desse amargo, ora veneno, ora remédio. O amargo que trava a garganta, que entorpece, que desnorteia, que derruba pelas beiradas. Regurgitamos o incompleto do entre-ser. Somos herança de nós mesmos, alimentados pelas próprias vivências, fadados à autofagia da alma, no fim do percurso. Muitos se esquecem disso, da consequência do sim e do não na porta de saída, vomitando o achar e o não-ligar como verbos pioneiriços. É tudo corrida vertiginosa, fonemas cuspidos antes de serem vocábulos, dizeres lançados antes mesmo de serem medidos. Tudo opinião e palavras jogadas ao vento. Sorrisos de pastilhas de hortelã. Somos escravos do momento, das emoções, da utópica razão pura tantas vezes subvertida em surtos de impulsividade, fardo inerente ao homem, esse do eterno "de repente, deu-se", um jogar-se no precipício, o precipitar-se e agir conforme a música, delineando a dança. Na digestão de tudo, a certeza de que na próxima vez não se repetirá o gesto ou o substantivo, estancará em si mesmo o vício do caminho mais fácil, o vício de manterem-se os vícios, acomodados no adiamento das nossas perfeições. Aprende-se. Finge-se. Sobrevive-se. Abastecemos a munição da máscara inquebrável. E lapidamos com a matéria-prima da cíclica hipocrisia. É a culpa e a solução, eterno vínculo dos que ainda evoluem, dos que não estão prontos. E, para que haja equilíbrio, purificamos a face com a felicidade honesta de estampas florais. Sete meses que soaram como anos, é o que todo mundo me diz, e deparei-me no espelho com o ser tão mais feliz no momento em que quebrara a janela para pular do sétimo andar. Confesso que no primeiro segundo esperei o contrário, tal como todo mundo espera, tal como muitos esperaram. Mas ficamos todos nós a ver navios. Acertar nas escolhas e nos erros dos outros não tem preço. E eu encerro a noite com o sopro à vela de cheiros em cima da mesa, trago o Camel que não convém e expulso para longe a rolha do Cabernet, bem gelado, porque é tempo de fogos de artifício e de flores na janela, do lado de dentro da porta e em todos os cantos de fora. Brindando à âncora erguida e ao vasto mar à frente, tenho todos os dias programados de coisa alguma. Surpreendo-me a cada minuto. Cigana de sempre e de tudo, prost! Und gehen wir. O silêncio é o mais novo barulho, intertextualizado, intermusicalizado, interpelado. Estrelas nos olhos, asas nas costas, vento no rosto, sol nos cabelos, sapatinhos vermelhos e o Blues. A reação é conforme a ação.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
luftschloss
Meu luftschloss pelo ar ficou, subiu às nuvens e nunca mais foi visto, e tudo aqui embaixo tornou-se tão pequeno quanto aquilo que em mim não vive. A distância nada mais é do que amiga, leva para longe tudo o que pedimos em oração - livrai-me de todo o mal, amém. Reinamos nossas vidas, ora como mestres, ora como o maior dos aprendizes. O esquecimento escolhe as lacunas para então se firmar, mesmo que não precise apagar as lembranças. Tudo perfeitamente acontece.
Abri a janela, permiti que atravessasse o vento mais forte da temporada. Levou papéis, cartas, flores, poeiras, levou os discos e deixou espaço nas gavetas. Deixou tudo de concreto no mesmo lugar. Brindei. E o nosso segredo ali está, nem dentro, nem fora. Está em tudo. Se vem à tona, não ligo.
O chão se abriu, bem diante dos meus olhos. Abriram-se também o tempo, mestre dos por quês, as horas, mucamas da angústia, os minutos, inimigos da consternação. Cegueira, mudez. Nua de armadura. Composta por não-quereres. Ouço trovões, mas não chove. Chove e, quando de fato chove, faz silêncio. Vejo paradoxos refletidos. Barulho no abismo, ecos no silêncio. Sinestesia. Tudo branco. Tudo azul. Joguei-me no mar. Flutuei, acordei, ancorei em hiato.
domingo, 8 de janeiro de 2012
we made our clouds
Antes que me ultrapassem os cientistas e pensadores desse espaço, de onde vem esses desenhos das nuvens que tanto se encaixam em meus planos? Que forma tem a minha completude senão aquela que enxergo através das altas massas no tecido azul acima da minha cabeça?
Tendo forma, tem cor. E não demora muito para que lhe apropriem cheiro, voz, pensamento, vontades. Não tem nome porque em tudo habita. Não tem limites, cabe no todo.
Totalmente preenchida de vontades - Toda trabalhada na sinestesia e na admiração das novas etapas.
Frio na barriga e olhos bem fechados...
sábado, 31 de dezembro de 2011
Die Zukunft liegt vor uns
Conjugam-se a partir de então verbos de novo ciclo, de novas datas, de novos planos, de novidades e de concretizações. Sempre as portas se fecham para que adentremos novos espaços, e é certo que quando algo já se esvazia, é prova de que lá na frente vem outro copo cheio para brindarmos aos sonhos frescos. Grata demais por tudo o que passei, satisfeita por ter firmado os pés nas minhas convicções e por ter sorrido em cada segundo de aula-da-vida. Tô mais 'grandinha'..., e cada um de nós, e é disso que temos que lembrar na despedida de um ano já concluído. Feliiiizz ano novo!!
-
"Além da Terra, além do Céu,
no trampolim do sem-fim das estrelas,
no rastro dos astros,
na magnólia das nebulosas.
Além, muito além do sistema solar,
até onde alcançam o pensamento e o coração,
vamos!
vamos conjugar
o verbo fundamental essencial,
o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempreamar,
o verbo pluriamar,
razão de ser e de viver."
[Carlos Drummond em: O amor natural]
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
drei, zwei, eins, los
Um braço aberto em cada hemisfério, cada pé firmando terreno vasto - malas prontas desde antes de nascer, restando só engolir a saliva e o fôlego, mas esses tanto se demoram quanto a minha história encerrada. As palavras buscando predicado em locuções adjetivas, verbais, prepositivas, e por aí vai - 3, 2, 1, los, tá na hora de virar a esquina de mais uma coisinha ali, was kann ich tun?
Muito amarguinho doce pro meu paladar.
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
demasiado humano
Com Parmênides e Heráclito metaforizo em rio meu percurso desse ano, agradeço ao Chefinho pelas grandes braçadas até a margem, socializo satisfações perante os frutos colhidos na beira da vida e brindo ao vinho das uvas, pois plantei-as e delas desfrutei na hora certa. Here I go again, mais um ano como esse e eu viro #likeaboss, afinal quem não ama colecionar aprendizado dentro das próprias decisões? O Chefe foi muito generoso comigo, adivinhou todas as minhas vontades. Tudo nos é dado na hora certa, e quem disso ainda duvida?
Para a curiosidade que aqui e ali planta radar, feliz ano novo também! Que ao invés do tempo gasto ao vir - ainda - aqui e acolá você também aprenda um pouco dentro da sua vida, tendo certeza que nela há muita coisa passando para que isso aqui não tenha importância, pelo menos pra você, dica. Que você filtre esses sentimentos encardidos aí para só utilizar a parte boa, todo esse azedume nunca lhe levará a lugar algum. Sorria! Uma coisa mamãe me ensinou - estando feliz eu compartilho, não faço questão de dividir com ninguém. Alegria a gente doa, tristeza divide e subtrai, saudade a gente guarda. E tudo no seu lugar para o recomeço das árvores, logo mais é outono e aparecem as novidades!
aaaahhh...
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
hotinthecitytonight
Falta fôlego pra tudo novo.
É muita lua pra pouco ar.
Puleiro de passarinhos de tonalidade fúcsia
Arritmia.
É muita lua pra pouco ar.
Puleiro de passarinhos de tonalidade fúcsia
Arritmia.
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
PAREM.
Peço licença para sair das margens, mas preciso falar. Mais clara do que serei, impossível. Chegarei ao limite da imbecilidade do querido diário, mas não vejo outra maneira, se meu silêncio é confuso. Por quê as pessoas pensam que eu sofri e sofro por decidir me separar?
Ao povo senso comum e machista, trago-lhe páginas de realismo - fiquei mais tranquila do que era, DÁ pra entender? Como toda pessoa de bem, tomei decisões que me cabiam para ser feliz, nada mais natural. Eu decido pela minha vida quando bem entender, de acordo com aquilo que é melhor pra mim. E é importantíssimo quando fazemos da maneira correta. ...E agradeço muito pelo que conquisto através disso. BLÉ bem grande para quem ACHA que sabe de mim. Me afastei das amizades doentias, das marionetes de duas faces, dos relacionamentos sufocantes, dos narcisismos que me ocultavam.
Meu Deus, não passa pela cabeça de NINGUÉM que o que vivo hoje é o que eu precisava e pedia??? Se as coisas acontecem por caminhos tortos, mesmo que doam, bem vindo é o amadurecimento em cima disso, responsável sempre por felicidade, e não sofrimento. EU que tenho que estar sofrendo? Por favor, não subestimem a própria inteligência e não desejem isso a mim, porque não existe! Ridículo eu ter que me expor dessa maneira para que me conheçam. Bando de idiota...
Tapinha no ombro e cabeça inclinada seguidos de "ow, você tá bem?" - enfiem nos seus cus, porque vocês estão se comportando como idiotas, prevendo a vida dos outros com suas demências novelísticas. O previsível existe, mas existem as exceções de toda regra. Seus tetos de vidro - quiçá de acrílico - precisam de polimento, dica. Os maridinhos e seus casos, as mulherzinhas e suas vidas de fachada, as solteirinhas olhudas, os pseudo-héteros que cultivam cupins nos devidos armários. Seus umbigos estão sujos, olhem para eles e assim todo o resto também ficará mais limpo...
Algumas pessoas não admitem que a outra seja feliz, elas simplesmente não querem isso. É o rancor que ingere-se como veneno, sabendo que esse mata a si, e não a mim. Alguém tem que sofrer, tem que ter a grama apodrecida, menos verde que as suas, tem que doer, e muito... né? Tem mesmo? - não não não, garota, nem pense em ser plena, em sorrir, e por aí vai. Se você constrói asas e quer sair da gaiola, dão-lhe logo sonhos de cera, como a distorção do sonho de Ícaro. "ela não sorri, ela sofre. ela está fingindo." - disse a corna na janela de seu apartamento. Os outros não querem. É super previsível. Os outros, o inferno desses outros, o inferno propriamente que são. Os outros. Os outros. No ** dos outros, nunca: sempre. Segundo os outros, esses que jamais terão inteligência suficiente, visto que não usam o cérebro, "todos os relacionamentos devem terminar de forma dolorosa e inimigável, com recheio de traições e baixarias". Lamento dizer, mas nosso caso foi bem mais simples: muito carinho, mas pouco equilíbrio. Ser sombra de alguém nunca fará bem a ninguém.
Vocês não me conhecem.
(Amigos que amo e família linda - ignorem isso, porque vocês podem tudo.)
domingo, 4 de dezembro de 2011
In dem die Zeiten sich bespiegeln
...Tem sabor de muitas coisas...
e cheiro de mais um pouco
cor de quase-dia
vontade de não passar tão cedo...
Melhor do que era.
Die Zukunft kommt zu mir, du nicht - liberdade de não estar em lugar algum, mas pisando chão firme da minha bolha.
e cheiro de mais um pouco
cor de quase-dia
vontade de não passar tão cedo...
Melhor do que era.
Die Zukunft kommt zu mir, du nicht - liberdade de não estar em lugar algum, mas pisando chão firme da minha bolha.
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