O recurso patético ao proparoxítono humorístico ou sarcástico ou satírico

O recurso patético ao proparoxítono humorístico ou sarcástico ou satírico

sábado, 17 de setembro de 2011

They'll send an S.O.S to you

Palavra e pensamento são criadores, precisamente por se instalarem como nascente. O perigo mora onde houver espaço.

Ao passear pela noite, vejo mil faces em diferentes cores. Vejo os mesmos autores e suas obras (as do verbo obrar, e não as do verbo criar). Vejo as mesmas retóricas vazias de significado. São todos personagens fictícios. Vejo maridinhos mimados traindo as suas grandes mulheres. Vejo garotas com complexos de Édipo mal resolvidos, e chego a jurar que não têm mãe nem pai, desejando os de compromisso e contradizendo a própria vontade de quererem algo fixo para si, brindando assim à contradição, a ignorância de si próprias. Vejo homens sem pudores, e até diria sem escrúpulos e sem culhões, desmerecendo o respeito que algumas enfim conquistam e desejando aquilo que não lhes é de direito. Usam como perfume - ou como ausência dele - o desrespeito. Vejo, também, pessoas aquém, semeadoras da discórdia, dos boatos e da malícia, porque a doença mental que é a mediocridade lhes tomou todas as outras prioridades na vida, e acredito que falta sexo nas suas rotinas, gastando o tempo para falar dos outros e para pescar maus comentários. São vespas bêbadas. Também vejo almas encalhadas nas próprias angústias em solidão, desesperadas em levarem para casa algo de mais interessante do que a própria existência, arquétipos empestados de complexos narcísicos, obcecados por se vangloriarem na adversidade refletida nos outros, jurando a inveja alheia e a cobiça de suas vidas medíocres, tão fedorentas debaixo do tapete. Vejo também aquele marido de liberdade enrustida que, no momento em que é solto, confessa o seu viver de aparências, e não conte a ninguém pelo amor de Deus, já mudei de idéia, tem a prole, e deixa eu voltar para casa para sorrir e calar, porque fui bem criado e honro minhas responsabilidades.

Garrafas, canudos e copos. DRINK ME, diria o rótulo. Beba-me. Obedece aquela alma de curiosidade e fraqueza. Em que mundo você vive, Alice? Não há mundo, não há chão, há vazio, na vida e nos pensamentos. Nada perdura. O clichê do efêmero com gelo e limão, ou não. Beba-me - e você cresce, você diminui, você some. Jamais permanecerá como era. Transforma-se. Muda à medida que molha a garganta, rega as idéias. Uma personagem que lhe afasta da verdadeira persona. Outra maneira de ser outra pessoa. Máscaras. Um vir-a-ser, uma mutação. Um sendo, enquanto durar a porção. Um ser aquilo que não é.

São cenas de um cotidiano corrupto, moribundo, mundano – o do mundo - , escarro dos bons, solitários à beira do abismo, em busca de álcool que limpe as feridas, que esterilize a agonia do fracasso. O que cheira a podre em perfumes caros. A ignorância em trajes de gala, autoconhecimento comprado em cigarreiras. A angústia anunciada. Pessoas e suas garrafas numa versão mais subterrânea de Message in a Bottle, com suas mensagens digeridas entre goles e gritos, quiçá pedidos de socorro, um “tirem-me daqui” que jamais é ouvido – há peso demais e a mensagem só afunda. Eixos mareados nas águas salgadas ou amargas do imperfeito, à espera de alguém que supere o abismo de abrir a rolha e traduzir uma alma. Uma babel das mesmas dores, do mesmo tédio, das mesmas rotinas, do velho museu de novas feridas. Eu? Você? Nós sobrevivemos.


[Schopenhauer diria: A vida oscila como um pêndulo entre a ansiedade e o tédio. Contanto que ele não generalize, eu acabo por concordar.]

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

a lot of keys and 6 hands.

The Weight Of My Words - Kings Of Convenience

There are very many things
I would like to say to you,
but i've lost my way
and I've lost my words.
There are very many places
I would like to go
but I can't find the key
to open my door.
The weight of my words-
you can't feel it anymore.
The weight of my words-
you can't feel it anymore.
There are very many ways
I would like to break the spell
you've cast upon me.
Because all the time
I sacrificed myself
to make you want me,
has made you haunt me.
The weight of my words-
you can't feel it anymore...

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Tempo bom, bom, bom, muito bom.

sábado, 27 de agosto de 2011

"ao meu jeito eu vou fazer..." - a sempre feliz.


A vida? A vida é uma pergunta, costumo dizer. A vida é contentamento. É a relação da alegria e dos seus contrários. A alegria não é negar a tristeza, a propósito. É saber que a tristeza existe e ainda assim fazer-se sentir. A alegria é a prova dos nove, já dizia Oswald de Andrade. É uma transformação metafísica, a superação que Nietzsche lembraria, a transformação da dor no prazer. É pura catarse. É suspiro. É a possibilidade de refletir em regozijo. A alegria é a felicidade como um tempo, e não uma constante. Há momentos, há o meu mundo – afirmação dos opostos, como já disse. É como sambar: chorar de alegria, sorrir de nostalgia, falou Noel Rosa. Uma pausa de mil compassos, (...) e nada mais nos braços, só esse amor, assim, descontraído - cantou Paulinho da Viola.

O fio de esperança fia-se no escrever. Esperança de não me esquecer.

Sou aquela que já não tem tempo pra mais nada. A cigarra que consegue ser formiga. Cronometra os minutos de arrumar a casa, antes da maratona de aulas e afazeres. Sou a que valoriza cada partícula de acontecimento do dia-a-dia, a partir de agora. Um gole d’água, compras no supermercado, aula de alemão, um filme na cama. O que for. Sou a única pessoa no mundo que só gosta de tomar banho no escuro, com música, a água bem quente. Sou a única pessoa no mundo que só faz reclamar de tudo, uma chata em potencial. Sou a única pessoa no mundo que se vicia MUITO em água com gás, gelo e limão, e o resto é resto, na medida do possível. Sou a única que tem o coração de geléia, sente rancor mas deseja o bem das pessoas. Sorrir não dói, fica a dica. Sou a única pessoa no mundo que, movida por um dicotômico e recente desvelamento, passa longe dos padrões de mulherzinha. A incompreendida. A que não é amélia. A que, se exausta, tem o marido que também varre, lava louça, lava banheiro, cozinha maravilhas, faz massagens. A que tem megalomania nas leituras. A que engole palavras. A que não fala alto. A que fala baixo, muito baixo. A que não consegue ser falsa. A que odeia retórica vazia de significado. A que arqueia muito as sobrancelhas, a que espreme os olhos porque os óculos não ficaram prontos, a que é sempre sisuda, a do sorriso de monalisa. A que critica. A cética. A que é sincera demais no que diz, dane-se. Aquela que é o que é, a que se decepciona por conhecer pessoas que preferem o clichê raso e pré-fabricado, hermeticamente igual. A que se deslumbra com as pessoas inquietantes nas excentricidades. A que não suporta a metade das coisas. A que quer tudo. A que adentra as entranhas. A que antipatiza a prepotência alheia. A que, narcisicamente, escreve besteiras.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

o moralista que tudo vê

‎"Minhas peças têm um moralismo agressivo. Nos meus textos, o desejo é triste, a volúpia é trágica e o crime é o próprio inferno. O espectador vai para casa apavorado com todos os seus pecados passados, presentes e futuros. Numa época em que a maioria se comporta sexualmente como vira-latas, eu transformo um simples beijo numa abjeção eterna.".

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"Manuel Bandeira chegou pra mim um dia, quando eu e meus personagens éramos odiados, e disse:' Nelson, por que você não faz uma peça em que os personagens sejam assim como todo mundo?' Eu respondi da forma mais singela: 'Mas meu caro Bandeira, meus personagens são como todo mundo.' Porque uma coisa é verdade: quem metia ou mete o pau no meu teatro está procedendo como um Narciso às avessas, cuspindo na própria imagem."

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“A ficção para ser purificadora precisa ser atroz. O personagem é vil para que não o sejamos. Ele realiza a miséria inconfessa de todos nós.”;

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....E esse é o moralista que nos cala antes mesmo de pensarmos em fazer o erro. Nelson Rodrigues, desvelado em uma ótima palestra com o fantástico Prof. Roberto Machado, esta noite. Volto para casa sentindo falta de óculos, mas a engolir toda e qualquer peça possível.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

claro e transparente como o sorriso que você julga me dar.


Um caminho muito complicado é aquele que tentamos traçar com pessoas que nos decepcionam, seja por um ato ou por um mal que dizem a nosso respeito. Essas pessoas deveriam saber que, nas suas tentativas de se fazerem vítimas nos julgamentos que sucedem a mágoa, o Homem certamente não é só aquilo que faz de si, mas também o “a partir da compreensão do outro”. Um ser-no-mundo. O Outro define e completa o ser. Basicamente, saiba que você não é apenas o que você julga e jura ser ou não ser, mas também o reflexo do outro, o "lado de fora", o espelho (pessoas), o que enxergam de você. O outro é o espelho que reflete o que eu sou. É aí que habita a dualidade da nossa existência, a lei da ação e da reação. Do fazer e de ter consequências. Do "ser algo para os outros" a partir de seu próprio comportamento. Usar máscaras não funciona, tampouco dizer que não é isso ou aquilo. Uma vez tendo agido errado, não há volta. Não existe "atrás do pano", não existe cortina, ou é, ou não é. Quem fala o que quer, mais cedo ou mais tarde ouvirá o que não quer (pelas costas, como uns, ou diretamente, como prefiro). Mesmo que eu lamente muito, mas muiiiiito isso.

Siga em frente.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

que sempre voem as nossas asas do saber e do ser.

"Que vai ser quando crescer?
Vivem perguntando em redor. Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível, ser? Dói? É bom? É triste?
Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?
Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R.
Que vou ser quando crescer?
Sou obrigado a? Posso escolher?
Não dá para entender. Não vou ser.
Vou crescer assim mesmo.
Sem ser Esquecer."

[Carlos Drummond de Andrade]

(...nada mais metafísico...sempre, sempre choro.)

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Homenagem ao meu filho LINDO que, neste dia 11, completa quatro aninhos de muita, mas muita gostosura, alegria e perspicácia. Você, filho meu, representa em seus quatro anos toda a minha ETERNIDADE de sentimentos e de aprendizado. SEJA. E seja MUITO feliz, da maneira que quiser, da maneira que for.

Lindo, lindo, lindo. Metafisiquemos..., seja, e assim exista. TE AMO.
*chorando...*

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

na paz mais incrível que existe - a interior.


Gosto das coisas que chegam assim, desfazendo o planejado, reconhecendo-se ao avesso no premeditado, espantando-se no imprevisível. Tudo aquilo que vai além do visível, do humano e do planejado me fascina. A coincidência da cor da parede com o humor de uma visita, a sisudez de um bom dia desvairado ao sintonizar a rádio que lhe presenteia com a mensagem primordial do recomeço, o amigo que lhe encontra e refaz aquele abraço que até então você necessitava, a TV que desacelera seus pensamentos quando você já está a ponto de explodir.

No chaveamento dos canais me entrego ao Sem Censura, mato a saudade no melhor estilo que a nostalgia me proporciona e encaro, sem delongas, a trilha do meu momento mais precioso – o de acordar amanhã.
Ele, tão lindo. Embalou e deu poesia ao meu cíclico reapaixonar-me, antes de selar meu destino. Sua voz é prelúdio de eu poder me apaixonar a qualquer momento, e sempre poderei. Eu posso agora.
Tenho com ele um passado de alentos inimagináveis, companheiro de CD surrado dentro do carro, em crises de choro por me atrever a ouvir Metade incansavelmente no caminho da minha casa para a faculdade, adentrando a sala com olheiras de sentimentalismo; Culpado, ele, por corroer-me em bandolins de uma dançarina solitária, em lua e flor, em estrelas e, no mais cruel das minhas vísceras, reencontrando-me em sua versão de Sem Fantasia..., com lágrimas e contorcionismo, entre a terceira e a quarta marcha's', sabendo que sempre não é todo dia.

Minha misantropia sempre reconheceu o seu timbre - e ai como eu amo o seu grisalho -, mãos que dedilham as cordas do violão e, veja só, por acaso pegaram-me no colo mais uma vez. A partir de então posso morrer e nascer o quanto eu quiser, o sonho de agora, e não de outra hora.
Preciso dizer que nesse momento eu choro um mundo inteiro?

zu leben - zu lernen


Vida que jamais perece, contínua máquina rotatória que gira, gira, gira, (mas não na redundância das palavras...), vida que jamais se deixa paralisar por qualquer circunstância. Vida boa que tarda a se entristecer, mestra de tantos mortais, dá-me mais um dia de aprendizado na felicidade. Vida de dicotomias, vida que me guarda. Ciclo de encontros e despedidas, de idas e vindas, de partidas e regressos. É real e é de viés e, como bem sabemos de tudo aquilo que vivenciamos - existir, problematizar, resolver, respirar fundo para o próximo batente, acordar e dormir: similar à Hidra de Lerna, cortada uma cabeça aparecem outras cem...

"E por fugir ao contrário, sinto-me duas vezes mais veloz", diria Chico Buarque.

sábado, 23 de julho de 2011

Never clip my wings

Se tenho o direito ao choro, então eu choro. É o direito que me dou ao passar a ser fã de alguém. Choro como quem perde alguém que embalou meus ouvidos e pensamentos nas situações mais adversas. Choro, e com vontade, como se em algum momento eu me sentisse no direito de, como fã, tê-la como alguém que conheço de tão perto. Foi quem embalou minhas mudanças de espírito e deu vida aos meus sentimentos em inúmeras situações. Fez companhia, permitiu que a conhecesse em suas fraquezas.

Deixemos de lado todo esse julgamento em torno de seus deslizes nas drogas,dispensemos todas as pessoas toscas com suas piadinhas de mau gosto. Paremos um pouco para pensar no quão importante ela foi para a NOSSA época, em como pudemos conhecer alguém tão GENIAL à medida que VIVEMOS, e não nos heróis do passado. Ela deixará certamente um riquíssimo tesouro aos futuros, digna de ser lembrada mais por sua obra do que por sua fraqueza, à medida que o tempo passe. Deixemos finalmente uma alma encontrar seu descanso, e insisto que busquemos fazer isso, algo tão mais difícil do que simplesmente julgar, como inevitavelmente fazemos. A solidão possui diversas facetas, eu bem sei. Sofrer é uma das mais difíceis tarefas que devemos cumprir nessa vida. Difícil mais ainda por trazer consigo embutida a incompreensão dos outros.

Ela, excêntrica. Mais uma pessoa de carne e osso que, envolta em suas particularidades, conseguiu transcender o comum e revolucionou nosso conhecimento sobre a boa música. Uma pessoa linda de talento absurdo, em efêmero tempo de existência, nos prova que é maior do que a vida aquilo que deixamos aos outros. Se foram precisos 27 anos apenas para que sua luz chegasse a nós, que eles sejam admirados, então. Never clip my wings. "Nunca amarre as minhas asas", já dizia a sua tatuagem. Deixem-na voar.

O “nunca mais” dói, apunhala e arde no coração de quem a admirava como eu. O “nunca mais” é o limite do desespero, é a angústia, a carência, o ser órfã de sentimentos. É o adeus. O silêncio. O vazio do replay.


segunda-feira, 18 de julho de 2011

discurso de alento

Leva,

Leva minha alma

Leve e pesada

Doendo em alvitres

Trancada nas horas

- passadas

Em que já não se vive.

Leva

Para alguém que não doa...

Para as horas à toa

Que não seja aqui,

Que não volte de lá

Que suporte a lembrança,

Leve.

Traga

Mais um último trago

Do que já não me habita

E que – sin embargo

Ressuscita.

sábado, 16 de julho de 2011

looking for a postman

As vísceras deterioram-se no pior dos sentimentos, o mais uma vez mencionado luto vem à tona. Lembrar a dor é senti-la em dobro, revivê-la incansavelmente dentro do mínimo espaço de ser. Incapaz de mover os lábios, encontro-me extinta de voz e de palavras para explicar a quem quer que seja o que acontece dentro de mim. Incapaz de mover os lábios, perco o último esforço de conseguir esboçar um sorriso. Já consigo enxergar nos outros as diversas interrogações, porque até então era tão raro eu não sorrir.

Há o colo ao dormir. Há um aperto de mão. Um cafuné que nunca tarda a vir. Há o bom dia com beijo de hortelã, há o filho que me envolve em dias de magnitude, há os amigos. Sou rodeada de mundo, mas não sou mais nada além de solitária desde então, simplesmente porque ninguém conseguirá sentir a dor por mim. O desabafo não consola, lamento, a não ser que alguém consiga entregar dentro de um envelope a minha dor para outra pessoa. Quiçá eu a envie pelo correio a algum desconhecido que cometeu grandes pecados nessa vida (toma, você merece mais do que eu). Quiçá eu me lembre de que aquilo que nos é dado é proporcionalmente igual à nossa capacidade e à nossa força, que eu não vivo as coisas por acaso e que, quer saber..., pelos mistérios entre o céu e a terra eu precisaria realmente doer por dentro para entender o lado de fora, amanhã. Não que eu me julgue merecedora de dor. Afinal, quem de nós, seres humanos, seria? Não que eu me julgue vítima diante da dor. Afinal, concordemos, seria horrível...

Por alguma razão, sofrer lapida os diamantes. Por alguma razão, ressuscitei Monalisa e equilibro a tristeza dentro da minha bolha de contentamentos.

O passado nada mais é do que o presente já dobrando a esquina. O futuro? Uma roda viva incapaz de ser regida como desejamos.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

O vácuo do atemporal


Dor que vem em meio aos beijos, junto à rotina, dentro do café com leite, misturada ao gole de whisky, dentre os tragos que já não dou, nos intervalos dos desenhos animados, entre as páginas das minhas leituras, nos capítulos do meu filme predileto. Dor que ignora a minha vida e a felicidade, dor que decretou seu próprio destino imortal e infinito e não se esquece de bater à minha porta. Dor que não se importa se é noite ou se amanheceu, se é cedo ou tarde. Dor do inevitável, dor da consequência, dor do sem perdão.

[Grito e choro, escondida, a dor não ouve. A dor não vê. Ela apenas existe.]

Maior do que o luto do imediato – aquele que é natural, que se inicia acompanhando a perda e que tão rapidamente cicatriza – é o luto da lembrança. O luto de lembrar dói sem a promessa de passar, oscila, lateja. Lembrar em luto é viver a morte e com ela morrer, segundo após segundo, sem promessa de alento. É cair em abismo, precipitar-se, morrer em precipício. É ferida aberta, é lamento, é frio sem cobertor, sede sem água. Fecho os olhos a espantar o filme que vai e vem nos meus olhos, mas as lágrimas que deveriam lavar só me queimam. Sinto dor. Mal dá para me contorcer em quimeras, o destino é um e a cruz só pesa.
Saudades do que não foi palavra. Lamento em quem não foi sussurro.
O luto da lembrança – eis uma dor que não desejo a ninguém.

sábado, 9 de julho de 2011

O uno e o múltiplo de sermos


Dieses Baums Blatt, der von Osten
Meinem Garten anvertraut,
Gibt geheimen Sinn zu kosten,
Wie's den Wissenden erbaut.

Ist es ein lebendig Wesen,
Das sich in sich selbst getrennt?
Sind es zwei, die sich erlesen,
Daß man sie als eines kennt?

Solche Fragen zu erwidern
Fand ich wohl den rechten Sinn;
Fühlst du nicht an meinen Liedern,
Daß ich eins und doppelt bin?
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"A folha desta árvore que de Leste
Ao meu jardim se veio afeiçoar,
Dá-nos o gosto de um sentido oculto
Capaz de um sábio identificar

Será um ser vivo apenas
Em si mesmo em dois partido?
Serão dois que se elegeram
E nós julgamos num unidos?

Pra responder às perguntas
Tenho o sentido real:
Não vês por meus cantos como
Sou uno e duplo, afinal?"

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(Goethe teria mandado a Frau Willemer uma folha de Ginkgo
Biloba como símbolo de amizade. A respeito da planta do Oriente,
não se sabe se ela é uma que se divide em duas, ou duas que
se unem numa.)

Somos o uno e o duplo, afinal, no nosso existir e no estar com
alguém. E desconfio de quem me disser que em Goethe não há
Filosofia.

(emocionada)

quinta-feira, 7 de julho de 2011

principles of lust

"Plena mulher, maçã carnal, lua quente,
espesso aroma de algas, lodo e luz pisados,
que obscura claridade se abre entre tuas colunas?
que antiga noite o homem toca com seus sentidos?
Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ar opresso e bruscas tempestades de farinha:
amar é um combate de relâmpagos e dois corpos
por um so mel derrotados.
Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,
tuas margens, teus rios, teus povoados pequenos,
e o fogo genital transformado em delícia
corre pelos tênues caminhos do sangue
até precipitar-se como um cravo noturno,
até ser e não ser senão na sombra de um raio."

[Pablo Neruda]

sexta-feira, 1 de julho de 2011

falschen Zeit


Era uma vez um rei. Era uma vez uma menina. Eles se encontraram na história de uma viagem. Era uma vez - e sempre haverá por aí - um amor proibido, aquele vivido em seu castelo tão bonito. E proibido seria não voltar.

Conheci tudo novo no meu velho mundo. E o velho me renova, sempre. Paradoxo dos contos de fadas. Eram dois olhos brilhando o amor de outrem, celebrando o meu. Era o brilho do amor meu, era a cumplicidade dos outros. E, em milhões de passos, percorri cidade em cidade em cidade em cidade. Meu berço. O rei me acompanhou, e talvez eu o tenha reconhecido. Talvez eu o conheça desde sempre. No fim, ele não passa daquele que vive dentro de nós - o pensamento. Era a história. Labirintos de árvores em vento gelado, flores, nuvens. Concreto em forma de casinhas de boneca.

Haverá um propósito para tudo nesse mundo, e minha alma não pousou lá por acaso, há 25 anos. Senti arrepios. As paredes me contaram histórias. Os tons de marrom ignoraram a minha idade. Quantos anos eu tive? Era tudo outrora. A cor das florestas e das flores pintavam meus planos. Senti-me nascendo, senti-me revivendo, senti-me, até diria, des-reencarnando, retrocedendo séculos e experimentando tons de vozes e cores, histórias, lendas, trilhas. A minha história. Os sabores. Os cheiros. Fiquei diante da coroa de pedras e de ouro. Eu vi as espadas com esmeraldas e rubis. Senti o peso das armaduras. Quis montar os imponentes cavalos árabes, mas eram só estátuas. Digeri - a música. As louças. Os cristais. As letras. O som das catedrais. Não me tirem dali, por favor.

Quis trazer tudo comigo, na bagagem de rodinhas (na de histórias, acredite, veio tudo. Deixei o país vazio). Quase trouxe o lustre de pedras preciosas para casa. Senti as árvores e roubei suas folhas. Couberam perfeitamente nos vácuos das minhas páginas da réplica do caderno de Goethe. Leio e releio suas citações e, embebida em Apfelwein, adormeço nesse sonho que mais uma vez acontecerá. É só acordar.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Heute, genau.


Os desenhos das nuvens lá no alto me fizeram decifrar o maior segredo da minha existência, assim que lá pousei – eu nasci para lá, e não para aqui. Eu sorrio para longe, e não para perto. Eu sou aquilo, e não isso. Eu sou lá.

Descobri minhas pegadas em todas as ruas, meus pertences, minhas texturas, os cheiros, as folhas, meus olhos, meus sabores, meu choro, meus versos, minhas perguntas. Quisera apressar o relógio e, se o destino não se importar com meu espaço nos quereres, poder recomeçar com os meninos lá, onde quero.

Cheiro de álbum de fotografias em meio ao vento gelado, quando nada mais interessa nesse mundo. Uma gola que cobria todo o pescoço escondia os nós de choro engolido, contido, moído. Relembrar as paisagens que não conheci, mas que nelas vivi, reativar a memória para o futuro, encontrar meu plano bem ali, entre a filosofia, a psicanálise e Goethe, na universidade de Dresden. Encontrar a cultura que quero em Berlim. Respirar pelas ruas de Frankfurt. Uma bicicletinha em Saarbrücken. Deixar-me levar pelo som dos sinos de porcelana, quando for a hora de voltar para casa. Esconder as mãos do frio, não de desamparo, mas de recomeço. Casa minha.

E a ela e a tudo, até breve.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

bisbaldagain


...Queria tudo de novo...

Tempo livre já não lembra mais de mim. É muita vida para ser vivida, pouco tempo para o supérfluo...

Falta-me oportunidade para colocar tudo em letras e transmitir por aqui todas as sensações desses últimos 20 dias. Feliz demais...

segunda-feira, 30 de maio de 2011

lindodemais

Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és

(Ah! bruta flor do querer...
Ah! bruta flor, bruta flor)


ESTROFEPREDILETA. SEMPRECHORO. GÊNIO.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Proparoxítonas de escárnio


Depois de muito tempo vagando, tropeçou nas proparoxítonas. Não era culpa dela. De súbito, logo sentiu saudade (mentirinha). Engasgou-se em lágrimas (mentirinha). Espetáculo. Sentiu cheiro de nostálgico. Não durou muito. A felicidade prevalecia, era mágico.


Deparou-se com o trágico, mas tal qual era e sempre foi, converteu-o em cômico. A lástima deixou para os outros. Sorriu. Sussurrou o último e rápido segredo, este de liquidificador para que ninguém o escute; É alérgica. Viu o ácaro arriscar contato, mas o desprezou como quem não dá mais espaço para o pálido. As cores são mais gentis, não precisam de inimigos. Mágico escárnio.