O recurso patético ao proparoxítono humorístico ou sarcástico ou satírico

O recurso patético ao proparoxítono humorístico ou sarcástico ou satírico

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Mãe - Teoria versus prática


Creio que toda mãe tem uma pontinha de "insight" dentro de si. Aquela pitada de sexto sentido, aquele toque final na magnífica educação passada à sua cria. Intuição, quem sabe. Haverá sempre um pouco desta, a qual coincide tão bem com as particularidades do seu filho, tão diferente de qualquer outra criança. Acredito que para uma excelente educação a intuição será sempre uma grande aliada, pois é com base nela que saberemos como instruir nosso filho da melhor maneira possível, até o resultado final: seu perfeito crescimento.

Há uma semana, por exemplo, meio assim do nada, tive algo parecido com um insight. Estávamos eu e Ícaro brincando de digitação no computador, coisa que ele adora, quando de repente um bebê novinho começou a chorar no prédio da frente. [Ícaro tem completa aflição quando vê ou ouve alguém chorar, ainda mais quando se trata de um neném, mesmo quando é personagem de filme]. Aflito, perguntou-me logo o motivo do choro, se era de fome, se era de frio, se ele tinha caído, onde estaria a mamãe dele.

Então se deu o estalo. Um passe de mágica. Aquele que só uma mãe é capaz de ter.

- Ah, meu amor... nem te conto. Aquele bebezinho, veja só, chora por não ter um bubu, já pensou?

- ...É?

- É. Você já ouviu falar na fadinha da chupeta?

- Não...

- É uma fadinha linda, de roupa bem colorida, cabelo grande igual ao da mamãe. Ela dá a chupetinha a todo neném que chora porque não tem... Sabe como é?

- Então ela compra um babu para o bebê que tá chorando?

- Ah, mas a fadinha não tem dinheiro... [tom penoso]. É assim. Quando uma criancinha cresce, como você, sabe o que a gente faz? Guarda as suas chupetas numa caixinha de presente e pendura na janela. Ela vem, pega e leva até o apartamento do bebê que chora...Em troca, ela traz um presente para você.

O bebê continua a chorar. Ícaro olha para as duas chupetas na mão. Suspira.

- Mamãe, eu quero ajudar.

E então fizemos todo o procedimento. Ele beijou os bubus, guardou num papel colorido, enfiou numa sacola bonita e pediu que eu pendurasse na janela do quarto dele. Depois escondeu-se, pois a princípio ele não suportaria ver a fada da chupeta, acho que lhe faltou coragem. Aproveitei o descuido dele e logo guardei o embrulho. Na volta para o quarto, com os olhos arregalados e brilhando, ele encontrou a janela já sem a sacola e me disse:

- Tá ouvindo, mamãe? Ele parou de chorar...

Sorriu.
E saiu satisfeito, sem tristeza, com orgulho e satisfação. Não chorou, não pediu, não se arrependeu. E desde então ele se faz completamente menino, distante do seu último rastro de transição. O bebê cresceu. A mamãe conheceu mais uma vez o orgulho. Nesse momento, confesso, ela chora.

...Repleta de uma alegria absurda, mas embalada por saudade dos três primeiros anos do seu filho, anos que mais pareceram voar.

Para alguns essa história também teria dado certo. Para outras crianças, nem tanto - a estorinha do Coelhinho da Páscoa cairia perfeitamente. Talvez a do Papai Noel, ou a da chantagem do videogame, quem sabe. O que basta é a mãe saber como lidar com o seu filho - e esse é todo o segredo - independente do que digam ao seu redor. Sempre haverá quem queira interferir. Sogras, por exemplo. Deixe que falem. A mãe é você. E a satisfação, maior do que a de qualquer outra pessoa, será sua.

terça-feira, 3 de maio de 2011

O labirinto de ser e não ser, ao mesmo tempo.


Aludindo a Karl Kraus: Muitas vezes, a Filosofia não é mais do que a coragem de entrar num labirinto.

Coragem, sim. Aquela que se move tendo como combustível a paixão por algo. A paixão que surge em algum momento da vida, esquecendo-se dos prováveis frutos ou da ausência deles. Aquela que não tem a certeza de te levar a algum lugar, mas que te proporciona evolução, coisa que poucos conhecem. A coragem também se banha nesse rio. Há inconsequência, mas há sinceridade. Existe o fracasso, mas prevalece o conhecimento. Existiu a coragem. Velho? Velho é o mundo. Lá fora? Uma retórica vazia de significado. Aqui dentro? Papiros, cultivando simultaneamente minha misantropia e minha procrastinação capitalista, esta tão cruelmente cobrada e julgada pela sociedade. O mundo é hipócrita, o mundo é superficial, e as pessoas lamentavelmente se acham melhores que as outras, esquecendo-se da ignorância que cultivam. Ser papagaio de pirata é triste, concordemos.

Tudo isso eu resumiria em versos e notas musicais porque, como é com a Filosofia, também é com a música: sem ela eu não vivo.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

o nosso viver de aparências


Tem sabor de café, de iogurte,de pasta de dente e enxaguante bucal. Tem sabor o seu beijo pela manhã. Tem cor de nuvem, tem cor de fruta, seu sorriso, sua boca. Tem som de acalanto a sua risada. Seu humor borbulha.


Seu timbre soa como a trilha do meu silêncio; seu ritmo coordena a minha preguiça. Sua mão em toque de felino. O olhar embebido em carência. Seu abraço, seu afago. Desperta-me. Seu beijo ao acordar.

Levanta, alguém nos chama. O dia se espreguiça... O vento nos cumprimenta. Chegamos mais uma vez ao ponto de partida do nosso percurso – o ponto de partida de mais um dia, o de acordar repetidamente, lado a lado. O de todos os dias.

-Seu beijo ao acordar.-

Reiterando o ciclo, reiterando o tempo. Aquele de permanecer constante. REnascendo. Acompanhando o sol, ouvindo a rua, regendo os pássaros. Dormindo e despertando. Observando o fruto, aprendendo e ensinando. Produto nosso. Como sorrimos...! Amigo, pai, marido, bom dia. Mais um, como aqueles tantos. Seu beijo ao acordar.

Tem cor de chuva o nosso sono. Tem cheiro de creme e amaciante. Tem a leveza do cobertor, a profundidade dos travesseiros. Só o relógio faz ruído. Tem sabor de pimenta, gengibre, hortelã, chocolate. Seu beijo ao dormir.

domingo, 24 de abril de 2011

sublime


Acordar cedo. Café com leite - bem docinho. Todos dormem. Céu nublado. Não se vê cor alguma. Pouca luz. Nariz gelado, pés com meias, chão frio. Cheiro bom. Chove muito. Chopin, por longas horas. Eu não teria outra palavra a não ser:

A cidade muda



Mudez, mudança. Afasia. Afonia. Mudança. A cidade, muda.

Os livros não mudam - Diferente de exposições, teatros e shows. -, diferente dos homens e das cidades. Podemos gravar a música, mas o som reproduzido não é a música do artista, da mesma forma que a reprodução de um quadro não é o quadro. A reprodução de um texto é o texto, embora eu me preencha com um pouco de paródia. Quadros, peças e esculturas envelhecem, craquejam, precisam ser restaurados. Os olhos e ouvidos, assim como a sensibilidade dos homens, mudam. A cidade.

Saio de casa, fecho a porta e caio na cidade. Ando nela esquecendo-me que daqui a 40 anos, 23, 35, um ano e oito meses, ou daqui a uma hora e 47 minutos posso morrer. Andamos com o medo de ser machucados, mas não com a lembrança de nossa morte futura. Só podemos viver e andar na cidade porque somos imortais. Ou não? E vamos criando anticorpos a cada esquina atravessada, para qualquer enfermidade.

A cidade muda. A cidade que conhecemos muda a cada minuto. O mundo muda. Na verdade, nem muda, por aquilo já não ser mais aquilo, e pelo 'isso' não ter tempo de continuar a ser 'isso' e em seguida deixar de sê-lo, no segundo seguinte. A cidade muda. Porque reconhecemos seus volumes, continuamos a chamá-la de nossa cidade. Surpreendo-me com um espaço vazio ou um novo prédio - não estava lá da última vez, lembro com certeza. Mas sei o que estava antes? Não. A ausência do que não me lembro, sua demolição e substituição, ou a reforma de uma fachada, a transformação do uso de uma casa em outro (agora é uma padaria, e o que era antes?), me fez pensar que eu estava perdendo a cidade que nunca guardei.

Ao deixar de perceber o que ali havia, no momento em que deixo de ver algo que ali jazia e agora já não há, tenho a mesma sensação da de quando percebo que uma peça que queria assistir saiu de cartaz. Uma representação não se repete. A percepção do transitório que compõe a cidade e sua vida trouxe à lembrança minha própria finitude, a co-habitação da indesejada das gentes nesse corpo que sou eu. Não vi, e portanto não continuará existindo em mim, aquela casa agora demolida, a peça não assistida. Não podemos estar em todos os lugares ao mesmo tempo, uma platitude física, mas podemos nos esforçar para estar onde estamos. Olhar e enxergar em volta. Uma casa e um prédio no meio do caminho. As pessoas, pedras ou árvores - aquelas que lhe prejudicam e aquelas que lhe dão sombra e abrigo.

Mudamos junto com a cidade, nós morreremos e ela continuará sua transformação. Tentemos, com distração, captar pequenos sentidos possíveis em nosso trânsito diário, passando adiante. Seja em uma conversa boba, indo ao cinema, na tal fila do supermercado em véspera de feriado, na nova livraria inaugurada, na árvore centenária recortada da imagem do bairro, no terremoto que adentrou o hall das notícias, no cachê diabólico pago ao padre que canta, no hotel antigo demolido naquela rua movimentada, nos pés de jambo colorindo as calçadas da minha avó, na quantidade de linhas horizontais que dão movimento aos volumes verticais, no cheiro de praia que perfuma Janeiro e o começo da rotina maquinal que reverencia Fevereiro em diante. E feliz ano novo, até o próximo reveillon.

Enxergar, apontar, nomear e narrar é também criar uma existência e poder passá-la adiante. Os livros não mudam, mas só existem dentro da ação contínua da vida, só acontecem quando lidos por olhos que mudam e passam adiante.


~~~~~


(Fotosdasfotos: com minha mãe; Saarbrücken, cidade natal que voltará a ser morada por algumas semanas de Junho. Além de Frankfurt e - só um sopro de - Lisboa.)

entre aspas, pero no mucho


Tenho pensado no fundo. No fundo das coisas, no fundo do coração, no fundo da terra, no fundo do mar, no fundo da cama, no fundo da xícara. Tenho pensado em me movimentar, nem que seja para o fundo. Para o profundo de tudo. Me esconder para que o tempo não passe. Para que as coisas não mudem. Para que o paradoxo se evidencie, veja pois. Saber das coisas a fundo, pensar pensamentos a fundo. Olhar a pessoa no fundo dos olhos e tentar descobrir o que ela fará comigo caso lhe mostre o fundo do meu coração. O fundo é um lugar e pronto. Quero mais que espaço e aspas, quero o imaterial que às vezes pesa à mão. Conhece? O imaterial que toca o coração com o dedo. Sem medo. Isso mesmo. Quero o que não pode com aquele que posso, quero ir ao supermercado e comprar desinfetante para minha mente e limpá-la. Quero ultrapassar a barreira do tempo e fazer a vida ser MAIS feliz. Será isso possível ou sou apenas uma lunática cheia de querências? Feliz já sou - a fundo, com dedos, anéis e sem medo.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Trilha chuvística de começo de uma semana gostosa


"Qualquer dia da semana
um coração vazio;
Se enche de amor
Qualquer dia da semana
É primavera
E um coração vazio
É um copo que enche
De inverno o inferno do eterno furor
De viver
Encher nosso copo corpo quente com luz seduz
Num coração com varanda, vista pra frente e jardim
E tudo isso cabe num barracão
Lua que fura e ilumina zinco quente
Eu e você, nossas roupas comuns
Iluminadas pela mesma luz de um lampião
Já passou, não passou
Outro sol, outro"
Hihihi :~

sábado, 16 de abril de 2011

Desejo de viver o que vivo para sempre.

Diz Sartre que o desejo se exprime por uma carícia, tal como o pensamento pela linguagem... eu suspeito que a linguagem é uma carícia e que o pensamento é um desejo.

ZéNeto detodasasruas


O seu nome? O seu nome? O Zé Neto emite sempre um duplicado das suas frases. Pediu-me um cigarro, um cigarro. E fogo, e fogo. Só depois perguntou o meu nome. Mônica, disse, sabendo que aquele princípio de conversa já acontecera outras vezes. Virou-se para os poucos circunstantes, o cigarro aceso entre o dedo médio e o anelar e anunciou, na voz volumosa e rouca: O nome oficial é Mônica. Mônica o nome oficial. Ninguém o ouviu. Também ninguém o olhou...

... Ele foi o flanelinha mais amável, doce e cordial que já vi. Sua aparência diria o contrário, mas a doçura de sua personalidade compensava. Uma alma que, por razão maior, adentrou um corpo estranho, nessa vida. Amável, sozinho. O sorriso tinha algo de ainda ser criança.

Um dias desses o Zé Neto me encontrou numa loja de conveniência e disse: Iogurte, iogurte. Acompanhou-me à prateleira e, antes que lhe perguntasse a marca e o sabor, apontou com os dedos grossos e sujos, decidido: Destes, destes. Por entre a profusão de marcas que me confunde, O Zé Neto sabe o que quer. - E sabe muito mais coisa do que nós podemos conhecer ou compreender. - E por isso jamais neguei um iogurte ou algum pão caramelado, quando o vi. Não havia maldade naquilo que pedia: a maldade habitava sempre e apenas no seu estômago - doía.

Quando os demônios o atormentam, grita ou canta. Sabe estribilhos de canções e repete-os. Por vezes, cria as suas próprias letras. Tão loucas como as de qualquer poeta em confusão. Invejei-o.

Zanga-se muito. Só ele saberá com quem ou com o quê. É uma zanga doce. É um menino grande, que franze as sobrancelhas e fecha o bico. É quando solta palavrões, em alto e bom som, em duplicado, em triplicado, tantas vezes quantas a raiva o exigir. Como qualquer um de nós gostaria de fazer, e não o faz por medo da classe.

O Zé Neto tem sempre muito calor, suponho. Há dias em que não suporta a roupa e se despe. Chega a ficar só com a bermuda. Claro que escandaliza as pessoas de bem, estas sinceramente hipócritas. O Zé Neto não sabe que não é um jovem atlético e que a rua não é uma “passerelle”.

Já o vi dançar. Nos quadris, o Zé Neto tem o ritmo de “twist”, e os braços ensaiam figuras de ginástica aeróbica. De fazer inveja a muito pé-de-valsa que anda por aí. Já tentei algo parecido, mas não é para qualquer um.

Devo dizer que nem sempre é assim destrambelhado e exuberante. Hoje encontrei-o sentado numa praça, de perna cruzada, recostado, com um cigarro apagado entre os dedos. Tem fogo? Tem fogo? E nem sequer descruzou a perna. Aproximei o isqueiro. Aspirou fortemente, repetidamente. Entre duas fumaças, respondeu: Obrigado, obrigado. Mal sabemos nós o sofrimento que faz parte do destino dele. Sabemos que ele vive, e sobrevive, em duplicatas, na solidão, na singularidade, no eco. Sei que ele é capaz de completar qualquer complexidade, só na sua simplicidade.

Há dias em que o invejo. Tão livre, tão livre.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

semvéu,semrazão.


O céu das seis da manhã mais parecia o de duas horas antes. Tudo nublado, pouca luz. O cenário perfeito para aquela que já nasce conosco - a preguiça. As obrigações, estas que eram a de todos os dias, não fizeram diferença. Foram atendidas sem reclamações. É a rotina que amo, afinal.

Diferença fazia o tempo livre que teríamos, depois de cumprir os objetivos matinais, não por ser inédito, mas por esse dia ter acordado com uma atmosfera dessemelhante. Chuva densa nessa cidade do sol. Frio nos pés. Brisa gelada. Céu grisalho. Café quente, com leite, bem doce. Café da manhã na cama. Chá. Sorrisos. Filme. Temperatura agradável, com tendências de frio. Amor debaixo dos lençóis. De fora, veríamos apenas o movimento, mas por dentro havia muita coreografia...coisas que se esquentavam da maneira mais natural possível.

Beijos. Pego no sono. Dividimos o filme em duas sessões, se bem que há muito tempo ele já ficara em segundo plano. Choveláforaeaqui...

…No strings attached. Hora de viver.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

falecomaminhamão


A palavra grega que designa o “sábio” se prende, etimologicamente, a “sapio” - eu saboreio, sapiens, o degustador, sisyphos, o homem de gosto mais apurado; um apurado degustar e distinguir, um significativo discernimento. O sabor das palavras, o tempero dos questionamentos, meu nutritivo sair da inércia. Constitui, segundo a consciência do povo, a arte peculiar do filósofo. Tentar dizer o sentido sem deixar que o mesmo se perca - e nem sempre isso é fácil; pensar sem perder a totalidade. Impor à totalidade a nossa subjetividade, ou seria o oposto?

O filósofo busca ressoar em si mesmo o clangor total do mundo e de si, expô-lo em conceitos, através de abstrações. Creio que cabe ao amante da filosofia o constante ciclo de digestão e transmissão do saber. Amar o pensamento. Apaixonar-se pelo conhecimento, identificar-se - ou não - com as idéias. E nelas eu me encaixo na maioria das vezes...

Sinceramente, defendo a idéia de muitos que tentam mesclar o pensamento filosófico ao cotidiano. Abomino aqueles que se afogam em seu ceticismo absurdo, julgando nefasto tudo aquilo que adentra o senso comum, embora este não seja tão agradável quando visto de perto - admito. Geralmente fazem parte desse meio ‘calouros deslumbrados’ com as idéias pré-concebidas, jovens esperançosos e crentes de haver no final do arco-iris um ser perfeito e nutrido de super intelectualidade, ao qual eles almejam se igualar, e sinceramente eu só vejo neles um protótipo desesperado de pseudo, fiel misantropo que não experimenta as efemeridades da vida..., ou que finge que não o faz, para não fazer feio diante dos demais. Neste ciclo também se encaixam os que já têm grande conhecimento, muitas vezes os que nos ensinam hoje em dia, mas que com o perdão da palavra – enrustiram-se em suas armaduras sérias e autossuficientes.

O homem de gosto mais apurado não precisa ser necessariamente um rabugento. Há beleza no cotidiano sem que seja necessário cuspir nos outros ao pronunciar Nietzsche – e afirmo sem piscar que muitos deles não o compreendem nem por alto..., embora seja tão popular e tão interessante - . Não é necessário vangloriar Heidegger para mostrar que atingiu um patamar mais elevado que os demais. Tampouco adianta declamar em latim aquele pensador mais exótico que ninguém mais conhece. Caham. Dá licença...

Vejo tudo isso esboçado em muitos dos meus colegas. Detesto o pedantismo. Todos esses autores estão ali, na minha estante, e nem por isso preciso mencioná-los na hora do intervalo, para que os outros ouçam. Já chamo atenção demais baforizando meu cigarro perto deles.

Creio que o sábio reina, como já disse, no saborear das informações. Digerir, abstrair, absorver. Algo totalmente distante da moldura exposta na parede, no avatar do seu site de relacionamento, no pigarro pedante das frases prontas, nas citações mal compreendidas dos grandes pensadores, dignas de lotarem um caderninho de reflexão.

Qual é a graça de usar a filosofia sem tê-la conosco no cotidiano? Sinceramente, não quero me perder nesse meio ilusório de semi ou pseudos, só pelo fato de eu me encontrar em outros sítios, na música, na tv, no dia-a-dia de mãe ou de esposa, na conversa de salão, na mesa de bar, nas piadas, entre cerveja e conversas. Parafraseando Sartre (pigarros), o homem não é a soma do que tem, mas a totalidade do que ainda não tem, do que poderia ter.

(Grilos)

Nada a ver, foi só para parafrasear mesmo.

terça-feira, 5 de abril de 2011

maybetomorrow


Depois de discorrer sobre o tempo, decidi procurar o analista mais próximo de casa: sentei no sofá, deitei no divã meu alter ego e pedi que proferisse tudo a mim, sem rodeios e prosopopéias. Ouvi cada ladainha. Burburinhos a respeito de abstrações, narcisismo de 1,60m. Diagnostiquei: complexo de boneca estúpida. Faz parte dos meus defeitos (digo, dos defeitos do meu alter ego) querer sempre extrair a rotina, deixá-la para escanteio. Mas o que é a felicidade senão uma constante? - Falei. - Felicidade é rotina, é calmaria, é tudo bem. e bem que me queimei agora... cadê o cinzeiro?

Sentada no sofá, prestei atenção em cada detalhe daquele corpo desnudo e pensante, deitado. Os olhos rodeando o teto da sala, as mãos cruzadas na vã intenção de encaixar as idéias soltas, as pernas cruzadas e esticadas, balançando os dedos dos pés. É a típica cena de quem não tem nada a ser mudado e analisado, penso eu, e por isso não cobrei a hora da consulta: vá pra casa, deixe o tempo para os velhos. E, cá entre nós, há coisa mais interessante para você fazer nesse exato momento.

E mais um trago ao final de tudo.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

mandamentointernetístico


Já não é o original que ilumina e transfigura o cotidiano. É o cotidiano que torna o original inteligível.

(E é tão raro encontrar o genuíno hoje em dia..)

Muitas vezes não é o admirar (puro) que move a interpretação e absorção dos atos e do existir/ser. Por muitas vezes enxergamos nitidamente no outro a falta de capacidade de se criar algo, e aí nos deparamos com cópias absurdas de nossas coisas mais obsoletas (ou não), mas tão consideráveis a olhos alheios. Não obstante, admirar (com todo o seu atributo de imitação) é quem mais empobrece e desfigura o original - É aí que sublinhamos o cotidiano -. Mas é quem requisita metade da minha gratidão e, também paradoxalmente, quem abastece mais ainda minha busca pela originalidade, mesmo que por muitas vezes eu não consiga, paciência. O diferente ensina. A cópia paralisa. Inspire-se, mas não xeroque. Aprendi isso. Quem o copia pode gostar daquilo que vê, mas também deixa morrer sua própria capacidade intelectual. Há 50% de tristeza nisso, sabia. Por isso hoje me inspiro. Amanhã, não sei.

Ao fundo: Lobão - Quente + Bambina

quarta-feira, 30 de março de 2011

Sermão informal sobre o resmungo


Ouço por aí as pessoas reclamando dos dias que têm vivido. Da má sorte, dos tapas na cara, dos “nãos”, das pedras, dos buracos, da chuva e dos empecilhos. Eu me calo. Posso estar mais ou menos errada, mas não por completo: penso - aquilo que você julga acontecer com você nada mais é do que o reflexo do que você faz aos outros (investigue bem lá no fundo, debaixo do tapete: há algo de sujo nos seus atos e você nem se deu conta disso.). É a lei da ação e da reação. O que bate, volta. Pense em tudo o que você já falou sobre os outros. Pense em todas as suas atitudes maldosas, na inveja que você sentiu (e a camuflou com vestes de desdém), no preconceito, no desprezo, nas críticas, nos boatos. Antes de achar que haverá sempre um bem para recompensar a sua coitadinha 'má fase', atente para a obrigação de reconhecer seus defeitos e antes de qualquer coisa conserte-os, porque só então a recompensa vem. A lição para quem se dispõe a aprender. O bem para quem é bom. O mal para quem maltrata. E não se iluda com todos aqueles injustos se dando bem por aí – se não aqui, acolá eles terão as “recompensas” deles. Nada nesse mundo passa desapercebido. Já ouviu falar que o mundo dá voltas? Já ouviu falar em muitas vidas? Já tentou ser uma pessoa melhor nesta?
Pois vou contar um segredinho. Aquele que lhe faz o mal na verdade é o mais infeliz dessa história, e não você (o que sofre). Ele é fraco de alma, de fé, de paz e de tudo o que for positivo. Ele sofre, e por não saber o que fazer, agride. Você é a vítima, e a melhor resposta que poderá dar aos outros é a sua felicidade inabalável. :)
Essa, certamente, contaminará quem estiver à sua volta, e o ser infeliz com certeza deixará de ferir você e passará a viver a própria vida, saindo da mediocridade.

domingo, 27 de março de 2011

my wonderland

Navegar é preciso. :}
Felicidade? Consequência boa.
Dias gostosos com maridón e filhotinho. E comigo. COMIGO!!!
Paz e semanas recheadas só com aquilo que realmente gosto. Faculdade. Filosofia. Filmes. Work. Paz again. Espiritualidade. Seguindo uma trilha na qual não preciso esperar por ninguém. Bom demaissssssssssssssss....... E por falar em trilha, esta por sua vez sonora - dã - Mumford & Sons. Totalmente trilha dirigística carrística dos meus dias. Volume nas alturas. Fica a dica.

Só digo mais uma coisa: no dia 6 de junho Deutschland me espera. Feliz pelas tabelas.

outra coisa é o Homem de viver


Terça-feira. Despretensiosamente - quase que por transmissão de pensamento ou coisa que o valha. (...) Ao fundo, o ruído gostoso da chuva. Foi no dia 22 deste mês, há uns dias, logo ali na sala, antes de dormir. Foi na volta da faculdade, quase desacreditada de ainda render mais alguma coisa. Mais precisamente às 22:45, na TV da sala, que é para não acordar o marido. Ali. No Canal Futura. Entre o chá de camomila com hortelã, o leite gelado com Nescau e os copos de água. Eis que, num desespero proveniente da insônia e no chaveamento frenético dos canais, alcanço o ‘32’ e me deparo com o fantástico programa “Umas Palavras”, com o mais fantástico ainda Benedito Nunes. E faço todo esse alarde só pelo fato de haver ali uma grande coincidência, pois justo nesse dia eu reli tanta coisa dele..., como quem não se conforma que ele foi e não volta.

Voz doce. Perspicácia sem tamanho. Conhecimento de mundo que chega a doer no meu calo de inveja. Analogias completamente pertinentes e inspiradoras. Heidegger e Sartre via Clarice Lispector. João Cabral. Deslizamento da Clarice. Aquele do vigor verbal extraordinário. Uma coisa é o homem de escrever, outra coisa é o homem de viver. A crítica literária floresce quando floresce a Literatura. E, permitindo-me parafrasear ainda mais o filósofo e crítico, aprender alemão é o “serviço militar” para se entender [e aprender] a Filosofia. E aí as coincidências gritam...

terça-feira, 15 de março de 2011

desconexo III


Meu mundo fantasmagoricozinho dilacera meus sentidos. Estou, talvez, perdida neste tempo, meramente colada à embalagem deste lugar que me soa um perfeito estereótipo. Mas sei que não o é. Anseio tanto por definir-me que as palavras, tímidas, se escondem, e quando as encontro, sinto que não me bastam (da mesma maneira sucede com as vírgulas, não nego). Por mais que eu tente compreender as pessoas, por mais que eu tente visualizar seus profundos, por mais que eu persista, eu sempre vejo espelhos nelas, e ao invadir seus sonhos e seus sentimentos acabo me vendo ali, em cada uma. Termino sem compreensão nenhuma, pois inutilmente não compreendo a mim mesma.

Não enxergo os outros. Tento - arduamente -, mas não é sempre que nos dão a verdade. Perco-me no emaranhado dos quereres, deixando de viver, por um segundo, e então preciso começar tudo outra vez. - Tua pele, meu domínio. Teu cheiro, meu desejo... Assim a roda viva sabiamente me põe deitada ao seu lado novamente, e então ali encontro a chave para todas as respostas, o em-si e o para-si do nada, o tudo, o ‘ter a certeza’ de que é para ali que os pássaros sempre voam no final das estações. É o destino de querer ser feliz e cuidar do que possui. É saber que você me protege do mundo. É honrar as decisões e agradecer por não precisar de mais ninguém. É entender que do lado de fora haverá sempre alguém que desejará me corromper, que desejará te corromper, e a bolha não estourará. Me orgulho. De todas que sou, não há nenhuma que não te queira, não há nenhuma que não te ame e por ser assim brigam em mim.

desconexo II


...E eu que sempre me firmei no que parecia não ser óbvio, lhe encontrei mais uma vez. Continuo a acreditar no paradoxo que vivem as paralelas do mundo. Eu sou uma estrada interminável. Sou feliz.


É preciso saber o que se compreende, ou pelo menos ter consciência daquilo que se compreende. Como se tudo dependesse de uma compreensão primária, que não satisfaz - se for superficialmente analisada. É preciso traduzir-se a fundo, porque eu sou por dentro, mas também por fora.

Sempre é melhor amar demais do que de menos. Ame!... O resto é besteira. O resto não é. O amor é um enigma. E esse enigma faz de mim esfinge: "Decifro-te ou devora-me!"

Existir é algo muito complexo, há sempre dúvidas quanto ao que é real, e quanto ao que não é. Por isso, sempre digo que não existo - eu sou! “Ser” é pura metafísica. Existir, pura ilusão. E o claro me cega a alma.

sábado, 12 de março de 2011

desconexo


Tua pele é meu domínio. Deito ao teu lado e me entorpeço com as vertentes do teu cheiro. Recosto-me em teu pescoço. A barba, mal feita, esta na medida do meu desejo, arranha meus temores trazidos dentro da bolsa, os quais catei nas ruas de tempestade. Teu timbre grave os destrói na primeira palavra, não me preocupo. Não tenho medo. Vivo na bolha, nas paredes coloridas desse quarto silencioso. Vivo no silêncio e nos acordes da tua companhia. Teu suor, mero reflexo de tua posse: já me vejo entorpecida. – e então não consigo controlar minhas mãos. Meus olhos te buscam. São olhos que se perdem no verdadeiro significado do olhar. E eu tento ver, no invisível imaginário, aquilo que minha alma busca, o que me consome depois de consumida.


Olhar pela janela e entender que a clausura do quarto nos protege de tudo, mas ao mesmo tempo nos faz melhores para o mundo. Quem sabe mais vulneráveis, mas, sinceramente, é no paradoxo que as coisas se encaixam. O mundo lá fora se faz carente. Existem os outros, em inferno e paraíso. Lembrei até de Sartre. Viajo.

quinta-feira, 10 de março de 2011

La femme comme il falt


O primeiro olhar lançado sobre ela é como um prefácio de um belo livro, ele lhe faz pressentir um mundo de coisas elegantes e finas. Em meio às vulgaridades, encontra-se, por fim, uma flor rara. Ela não veste cores berrantes, nem meias que chamem atenção, nem a fivela do seu cinto é muito trabalhada; é da mais requintada simplicidade.


La femme comme il faut sabe como prendê-los dos quadris ao pescoço e sugere as mais belas formas ao escondê-las. Ah! Como ela domina, permita-me a expressão, “o ritmo da caminhada!”. Possui, enquanto caminha, um arzinho digno e sereno, como as madonas de Rafael em seus quadros. Vê-se a figura fresca e, repousada de uma mulher segura de si, sem fatuidade, que nada vê e tudo vê, cuja vaidade embotada por uma contínua satisfação expande sobre sua fisionomia uma indiferença que desperta curiosidade. É impossível confundi-la com a burguesa, que está sempre ocupada, sai não importa o tempo que faça, apressa-se, vai, vem, olha, não sabe se entra ou não entra numa loja. Ao passo que a femme comme il faut sabe bem o que quer e o que faz.

Ninguém como a femme comme il faut para estar à vontade dentro de suas vestes; nada a incomoda (...) Ela sabe comunicar o valor do pensamento por uma maneira de se conduzir inimitável. É sábia o suficiente para lhe fazer sempre esperar...

A femme comme il faut é dona dessas nuances, de maneira maravilhosa.



[Estudos de Mulher;
Honoré de Balzac.]