O recurso patético ao proparoxítono humorístico ou sarcástico ou satírico

O recurso patético ao proparoxítono humorístico ou sarcástico ou satírico

sábado, 29 de outubro de 2011

badlovestrangesmoke

A vida se reinicia em passos largos, as oportunidades me visitam à porta e eu cantarolo novas canções, ao passo que me anoiteço em lembranças daninhas. Tudo o que já me habita por dentro antes mesmo de eu pensar em jogar no ar. Lembranças boas que se fixaram, que não há como evitar, que não dá para extinguir. Tudo aquilo que o respeito evoca.

Os moinhos giram as pás, gira o mundo ao meu redor. Roda viva de socos no estômago, cheiro de hortelã, carinhos de uma mão pequenininha, livros de engrandecimento anti-inércia. Chega uma hora em que tiramos as rodinhas da bicicleta, soltamos as mãos dos pais, arrancamos a última pétala de bem-me-quer e seguimos com os próprios passos, seja aqui ou do outro lado do mundo.

Infinitas nuvens, como um rebanho no prado, tantos desenhos já não vejo e tantos outros agora percebo. Quantas folhas caíram em outono e que primavera me toma pouco a pouco...! As flores vieram. Mesmo na saudade do inverno, tão confortável.  Parnasianismo de revestrés, volta e meia, e quem sabe até uns tragos, não me desvencilho.

Na mira do canhão cada minuto conta. Não há tempo para pensar, embora seja esse todo o nó das boas escolhas. Pensando, tudo se encaixa... Cada novo ser emana em sua forma um novo recomeço. E eu conto com o espelho.! Saída da caverna, reconhecendo-me novamente. Hoje meus dias são conectados à sua despedida, minhas estações se definem com a sua saída, mas não abrumo minhas escolhas. E fico tranqüila que tudo se renove, e que bom que existe a amizade, e que bom que as coisas se transformam....

O homem é um animal preso à sua caixa de sentimentos. Segredo: descobri a chave.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

neues Parfüm

"É preciso SABER SENTIR, mas também como deixar de sentir, porque se a experiência é sublime pode tornar-se igualmente perigosa. Aprenda a encantar e a desencantar. Observe, estou lhe ensinando qualquer coisa de precioso: a mágica oposta ao 'abre-te, Sésamo'. Para que um sentimento perca o perfume e deixe de intoxicar-nos, nada há de melhor que expô-lo ao sol".

(Clarice Lispector, "A Bela e a Fera, p.46-47).

Ré mal sucedida numa rua sem saída

Não é poema, é dilema. Pára-choque amassado numa manhã de terça-feira. Tudo culpa do leite que acabou, da banana para a semana e do café de todo dia. Nem queria sair de casa, mas saí para a vida. E pimba. Se eu me tomasse pela superstição, diria piamente que olha, tá vendo, voltar no tempo não cabe a mais nada, que reviver o passado já não me soma e que a roupa velha já não me veste. Foi um sinal... E, veja só, nunca tive tanta pressa, nunca senti tanta saudade do que ainda não vivi, nunca corri tanto para longe da inércia. E eu, que sempre fui desobediente, obedeci. Sim senhor, viu? E chego a sentir remorso por não doer mais, por não amar mais, por não sentir falta, por deixar que o vento leve. Como eu fui obediente. Era tudo questão de costume, será? - mau costume, diga-se de passagem. Era só uma abstinência de conveniência. Acredito que sim. Uma ré nos sonhos, nos planos. Cansei dos retratos, já expulsei as ladainhas do coração. Quanta lucidez! Quanto novo sabor na boca! Em outra - em outra órbita. Sonhando acordada com outras coisas. Apressada para deixar meu nome no necessário. porque sou obediente. Quando me lembro que aquele tempo existe, é pelo vínculo que ainda nos resta. E foi lindo. Brindo com um irônico e mediano vinho chileno. Passou, vá, viveu-se. À ré, meus agradecimentos.



"a estrela cadente / me caiu ainda quente / na palma da mão...."
[Leminski]

domingo, 23 de outubro de 2011

O clichê do "tô em outra" - estrada...

"Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final. Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário, perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver. Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos. Não importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos que já se acabaram. As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas possam ir embora. Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se. Lembre-se de que houve uma época em que podia viver sem aquilo - nada é insubstituível, um hábito não é uma necessidade. Encerrando ciclos. Não por causa do orgulho, por incapacidade, ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida. Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira".

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A Saudade - quod me nutrit me destruit

Escrevo Saudade no papel para que ela deixe de ser sentimento e se torne apenas palavra. Uma palavra no papel só passa a ter peso quando a ela se compete um valor, e uma lembrança só pode ser digerida quando deixa de existir no plano da angústia. Saudade é um retrato na parede, é a lembrança das cores, dos cheiros. Saudade é a palavra que já não suporto, a inimiga das minhas razões, a madrasta da coerência. Aquela que pune por querer fazer o correto. 

Andar para frente é esquecer a porta de trás, é memorizar a paisagem que já passou. A janela nos mostra uma perspectiva apenas, mas ainda assim nos traz algo de novo. O tempo é mudo e tem pressa. Quando virei a esquina, já esqueci. Nada mais tem peso. A saudade acabou, logo ali - mentira, ela acabou comigo. Bem aqui. Novos sapatos para um novo chão. E não nego, não nego a saudade. Bis bald. No mais, meu filho me ancora com asas de cigana. Mudei de país. Agora em alma e frio na barriga, amanhã em corpo. Ir aonde o destino me quer.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Dasein

O último gole. O último trago. O último encontro. A última página. A última dose.

Leveza nas costas, leveza no olhar, leveza nas palavras. Leveza nas mãos. Medo. Ansiedade. Alívio. Desabafo. Suor. Sorriso. Missão cumprida. Penso que já fui, mas ainda estou aqui. Sinto medo, mas antes já havia me servido de coragem. Tendo feito o que tinha que ser feito, tendo sussurrado o que tinha que sussurrar, colho sementes de novas colheitas, amanhã é tão perto que, mesmo que demore a chegar, é meu de direito. É melhor correr o risco ao expressar o que sinto a calar e viver o de sempre. Sinto e não sinto pressa. Debaixo do tapete, encontrei  a chave, abri a porta – mereço mais. Não existe metade das coisas. Ninguém pode me cobrir de negro. Não aceito meio copo, meia palavra. Meio olhar, meia devoção. Não sou do tipo que é posta no ombro, cantarola sons de papagaio e finge não existir. Tenho sangue, tenho pele, tenho voz e tenho timbre. Não me apaguem o sol que já me é de direito...

Clichês. Olhar para trás e não se arrepender. Viver tudo de novo. Saber a hora certa de agir, de novo. Ter boas lembranças. Cultivar o carinho das coisas boas, do lado bom da coisa. Nada acontece por acaso. Aprendemos em tudo, com tudo. Ser sincera acima de qualquer medo. Se eu não for comigo e com os outros, como esperar que sejam em retribuição? Melhor dizer como se sente a guardar aflições por medo de apontar os defeitos dos outros. Triste de quem não aprende, triste de quem não dá o braço a torcer. O espelho é o melhor amigo do futuro bem vivido. 

Livre e recomposta, mas  ainda com cacos a catar, olho pra cima e vejo que o que foi feito é o correto, mereço mais, já disse. Fui sincera, pedi mais, mesmo que a garrafa já estivesse vazia. Dói, mas revigora. Falaria tudo de novo. Vazios são os outros. Não sou invisível e sim transparente, não sou de plástico, não sou de vento. Tenho reflexo no espelho. Dois olhos, uma boca, dois ouvidos, uma alma. Peço licença para existir. Basta de não ser vista. Mil idéias. Pouca existência para vivê-las, e para isso existe sempre alguém. E quando o “alguém” já habita a Babel da própria bolha, muda-se o disco e traçam-se novos horizontes. O amor demora a morrer, e na verdade ele nunca morre, se transforma, e a saudade ainda vai me procurar, vai insistir em ficar, sentar no sofá e me observar lentamente nos buracos de silêncio, mas o tempo sempre ajuda. Que comecem uma campanha de maturidade nos postos de saúde, tem gente precisando de umas gotinhas. Compreensão faz bem à saúde. Egocentrismo, além de doença, mata. Me mataram por dentro. Quase sumi.

Mas tô aqui.
Dói.

‎"Vamos, não chores. (...)
A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo erradomurmuraste um protesto tímido.
Mas, virão outros."


[Carlos Drummond de Andrade]

terça-feira, 4 de outubro de 2011

poserblasénolimetangereblablabla

SEM TEMPO AAAAAAAAAAAAAA
dasein
dasein
dasein
dasein
dasein
dasein


DA-SEIN
BOLERO
E
BLUES.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

"Temos a arte para não morrer da verdade."


"Toda a arte e toda a filosofia podem ser consideradas como remédios da vida, ajudantes do seu crescimento ou bálsamo dos combates: postulam sempre sofrimento e sofredores."



[Nietzsche]
[obra: minha preferida de Modigliani]

sábado, 17 de setembro de 2011

meus ombros já não suportam o mundo


Não me acho muito, mas me acho grande. Dou-me o direito de me evidenciar. Dou-me o direito de me defender, de não desbotar, de não desaparecer. Todos nós somos cegos dos outros, todos são cegos de mim. Mea culpa, culpa sua. Sou estátua que se move. Não sou nada, mas sou algo. Sou um mosaico de mal-conhecerem, um enigma a tudo o que não vem de dentro, aquela que enxergam, mas que ninguém vê. Assim somos todos, assim como a maioria, assim como você e ele. Somos cartas de um jogo da memória, muitas vezes organizadas em pares avulsos, e não em combinações iguais. O que sou e o que você vê de mim não são a mesma coisa. Ninguém me conhece. Mea culpa.

Sou sorriso de Monalisa. Sou borboletas na cabeça, pensamentos que não exponho, vontades e opiniões que calo até que alguém os faça à mesma medida, ou em proporção similar. Apenas concordo com a cabeça. Sorrio, quando não tenho o que fazer. Falo muito baixo e não consigo espaço.

Sou a boa bailarina para o açougueiro, a excelente aluna para o vigia, a mãe carinhosa para o dentista, a perfeita dona-de-casa para o professor, a amiga ideal para a estátua da praça. Sou sempre o velamento de um ser que nunca se revela, bla bla blá, sou sempre alguém à pessoa errada. Acordo existindo e erro de destinatário, bato sempre nas vistas erradas. Sou balela metafísica. Nunca a combinação correta. Não me deixo ser vista. Sou sempre a que não sucumbe ao desvelamento inteiriço, a que não sabe como andar até ao espelho, a que desconhece o reflexo e o cheiro. Sou a muda que muito tem a dizer, a que cala, mas que pensa, e muito. A que é, mas que não diz. Aquela que família, amigos e anônimos jamais conheceram, que absorvem e não penetram, a que jamais se complementa, a que deixa estar, a que respeita o silêncio que lhe oculta. A que dá o reflexo a quem não vê, não sei se por desastrada ou por acanhamento, sempre oculta nas interjeições e na complacência, no aham que não opina, na máscara do “e se”, no cacoete do “deixa pra lá”. A que enforca a própria garganta, mesmo sedenta de vomitar a essência. Clara como a água que não o é, cuspo um desabafo de 25 anos de vontade de ser o que quero e não consigo, ser aquilo além do visível, e juro ainda que sou mais e melhor, e enxerguem, estou aqui, e amigo, quero um copo e um trago, e meu Deus aqui dentro sou barulho e por fora sou vazio, e permita-me uma dose, e juro que existo, e o nome disso é frustração.

They'll send an S.O.S to you

Palavra e pensamento são criadores, precisamente por se instalarem como nascente. O perigo mora onde houver espaço.

Ao passear pela noite, vejo mil faces em diferentes cores. Vejo os mesmos autores e suas obras (as do verbo obrar, e não as do verbo criar). Vejo as mesmas retóricas vazias de significado. São todos personagens fictícios. Vejo maridinhos mimados traindo as suas grandes mulheres. Vejo garotas com complexos de Édipo mal resolvidos, e chego a jurar que não têm mãe nem pai, desejando os de compromisso e contradizendo a própria vontade de quererem algo fixo para si, brindando assim à contradição, a ignorância de si próprias. Vejo homens sem pudores, e até diria sem escrúpulos e sem culhões, desmerecendo o respeito que algumas enfim conquistam e desejando aquilo que não lhes é de direito. Usam como perfume - ou como ausência dele - o desrespeito. Vejo, também, pessoas aquém, semeadoras da discórdia, dos boatos e da malícia, porque a doença mental que é a mediocridade lhes tomou todas as outras prioridades na vida, e acredito que falta sexo nas suas rotinas, gastando o tempo para falar dos outros e para pescar maus comentários. São vespas bêbadas. Também vejo almas encalhadas nas próprias angústias em solidão, desesperadas em levarem para casa algo de mais interessante do que a própria existência, arquétipos empestados de complexos narcísicos, obcecados por se vangloriarem na adversidade refletida nos outros, jurando a inveja alheia e a cobiça de suas vidas medíocres, tão fedorentas debaixo do tapete. Vejo também aquele marido de liberdade enrustida que, no momento em que é solto, confessa o seu viver de aparências, e não conte a ninguém pelo amor de Deus, já mudei de idéia, tem a prole, e deixa eu voltar para casa para sorrir e calar, porque fui bem criado e honro minhas responsabilidades.

Garrafas, canudos e copos. DRINK ME, diria o rótulo. Beba-me. Obedece aquela alma de curiosidade e fraqueza. Em que mundo você vive, Alice? Não há mundo, não há chão, há vazio, na vida e nos pensamentos. Nada perdura. O clichê do efêmero com gelo e limão, ou não. Beba-me - e você cresce, você diminui, você some. Jamais permanecerá como era. Transforma-se. Muda à medida que molha a garganta, rega as idéias. Uma personagem que lhe afasta da verdadeira persona. Outra maneira de ser outra pessoa. Máscaras. Um vir-a-ser, uma mutação. Um sendo, enquanto durar a porção. Um ser aquilo que não é.

São cenas de um cotidiano corrupto, moribundo, mundano – o do mundo - , escarro dos bons, solitários à beira do abismo, em busca de álcool que limpe as feridas, que esterilize a agonia do fracasso. O que cheira a podre em perfumes caros. A ignorância em trajes de gala, autoconhecimento comprado em cigarreiras. A angústia anunciada. Pessoas e suas garrafas numa versão mais subterrânea de Message in a Bottle, com suas mensagens digeridas entre goles e gritos, quiçá pedidos de socorro, um “tirem-me daqui” que jamais é ouvido – há peso demais e a mensagem só afunda. Eixos mareados nas águas salgadas ou amargas do imperfeito, à espera de alguém que supere o abismo de abrir a rolha e traduzir uma alma. Uma babel das mesmas dores, do mesmo tédio, das mesmas rotinas, do velho museu de novas feridas. Eu? Você? Nós sobrevivemos.


[Schopenhauer diria: A vida oscila como um pêndulo entre a ansiedade e o tédio. Contanto que ele não generalize, eu acabo por concordar.]

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

a lot of keys and 6 hands.

The Weight Of My Words - Kings Of Convenience

There are very many things
I would like to say to you,
but i've lost my way
and I've lost my words.
There are very many places
I would like to go
but I can't find the key
to open my door.
The weight of my words-
you can't feel it anymore.
The weight of my words-
you can't feel it anymore.
There are very many ways
I would like to break the spell
you've cast upon me.
Because all the time
I sacrificed myself
to make you want me,
has made you haunt me.
The weight of my words-
you can't feel it anymore...

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Tempo bom, bom, bom, muito bom.

sábado, 27 de agosto de 2011

"ao meu jeito eu vou fazer..." - a sempre feliz.


A vida? A vida é uma pergunta, costumo dizer. A vida é contentamento. É a relação da alegria e dos seus contrários. A alegria não é negar a tristeza, a propósito. É saber que a tristeza existe e ainda assim fazer-se sentir. A alegria é a prova dos nove, já dizia Oswald de Andrade. É uma transformação metafísica, a superação que Nietzsche lembraria, a transformação da dor no prazer. É pura catarse. É suspiro. É a possibilidade de refletir em regozijo. A alegria é a felicidade como um tempo, e não uma constante. Há momentos, há o meu mundo – afirmação dos opostos, como já disse. É como sambar: chorar de alegria, sorrir de nostalgia, falou Noel Rosa. Uma pausa de mil compassos, (...) e nada mais nos braços, só esse amor, assim, descontraído - cantou Paulinho da Viola.

O fio de esperança fia-se no escrever. Esperança de não me esquecer.

Sou aquela que já não tem tempo pra mais nada. A cigarra que consegue ser formiga. Cronometra os minutos de arrumar a casa, antes da maratona de aulas e afazeres. Sou a que valoriza cada partícula de acontecimento do dia-a-dia, a partir de agora. Um gole d’água, compras no supermercado, aula de alemão, um filme na cama. O que for. Sou a única pessoa no mundo que só gosta de tomar banho no escuro, com música, a água bem quente. Sou a única pessoa no mundo que só faz reclamar de tudo, uma chata em potencial. Sou a única pessoa no mundo que se vicia MUITO em água com gás, gelo e limão, e o resto é resto, na medida do possível. Sou a única que tem o coração de geléia, sente rancor mas deseja o bem das pessoas. Sorrir não dói, fica a dica. Sou a única pessoa no mundo que, movida por um dicotômico e recente desvelamento, passa longe dos padrões de mulherzinha. A incompreendida. A que não é amélia. A que, se exausta, tem o marido que também varre, lava louça, lava banheiro, cozinha maravilhas, faz massagens. A que tem megalomania nas leituras. A que engole palavras. A que não fala alto. A que fala baixo, muito baixo. A que não consegue ser falsa. A que odeia retórica vazia de significado. A que arqueia muito as sobrancelhas, a que espreme os olhos porque os óculos não ficaram prontos, a que é sempre sisuda, a do sorriso de monalisa. A que critica. A cética. A que é sincera demais no que diz, dane-se. Aquela que é o que é, a que se decepciona por conhecer pessoas que preferem o clichê raso e pré-fabricado, hermeticamente igual. A que se deslumbra com as pessoas inquietantes nas excentricidades. A que não suporta a metade das coisas. A que quer tudo. A que adentra as entranhas. A que antipatiza a prepotência alheia. A que, narcisicamente, escreve besteiras.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

o moralista que tudo vê

‎"Minhas peças têm um moralismo agressivo. Nos meus textos, o desejo é triste, a volúpia é trágica e o crime é o próprio inferno. O espectador vai para casa apavorado com todos os seus pecados passados, presentes e futuros. Numa época em que a maioria se comporta sexualmente como vira-latas, eu transformo um simples beijo numa abjeção eterna.".

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"Manuel Bandeira chegou pra mim um dia, quando eu e meus personagens éramos odiados, e disse:' Nelson, por que você não faz uma peça em que os personagens sejam assim como todo mundo?' Eu respondi da forma mais singela: 'Mas meu caro Bandeira, meus personagens são como todo mundo.' Porque uma coisa é verdade: quem metia ou mete o pau no meu teatro está procedendo como um Narciso às avessas, cuspindo na própria imagem."

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“A ficção para ser purificadora precisa ser atroz. O personagem é vil para que não o sejamos. Ele realiza a miséria inconfessa de todos nós.”;

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....E esse é o moralista que nos cala antes mesmo de pensarmos em fazer o erro. Nelson Rodrigues, desvelado em uma ótima palestra com o fantástico Prof. Roberto Machado, esta noite. Volto para casa sentindo falta de óculos, mas a engolir toda e qualquer peça possível.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

claro e transparente como o sorriso que você julga me dar.


Um caminho muito complicado é aquele que tentamos traçar com pessoas que nos decepcionam, seja por um ato ou por um mal que dizem a nosso respeito. Essas pessoas deveriam saber que, nas suas tentativas de se fazerem vítimas nos julgamentos que sucedem a mágoa, o Homem certamente não é só aquilo que faz de si, mas também o “a partir da compreensão do outro”. Um ser-no-mundo. O Outro define e completa o ser. Basicamente, saiba que você não é apenas o que você julga e jura ser ou não ser, mas também o reflexo do outro, o "lado de fora", o espelho (pessoas), o que enxergam de você. O outro é o espelho que reflete o que eu sou. É aí que habita a dualidade da nossa existência, a lei da ação e da reação. Do fazer e de ter consequências. Do "ser algo para os outros" a partir de seu próprio comportamento. Usar máscaras não funciona, tampouco dizer que não é isso ou aquilo. Uma vez tendo agido errado, não há volta. Não existe "atrás do pano", não existe cortina, ou é, ou não é. Quem fala o que quer, mais cedo ou mais tarde ouvirá o que não quer (pelas costas, como uns, ou diretamente, como prefiro). Mesmo que eu lamente muito, mas muiiiiito isso.

Siga em frente.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

que sempre voem as nossas asas do saber e do ser.

"Que vai ser quando crescer?
Vivem perguntando em redor. Que é ser?
É ter um corpo, um jeito, um nome?
Tenho os três. E sou?
Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito?
Ou a gente só principia a ser quando cresce?
É terrível, ser? Dói? É bom? É triste?
Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas?
Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R.
Que vou ser quando crescer?
Sou obrigado a? Posso escolher?
Não dá para entender. Não vou ser.
Vou crescer assim mesmo.
Sem ser Esquecer."

[Carlos Drummond de Andrade]

(...nada mais metafísico...sempre, sempre choro.)

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Homenagem ao meu filho LINDO que, neste dia 11, completa quatro aninhos de muita, mas muita gostosura, alegria e perspicácia. Você, filho meu, representa em seus quatro anos toda a minha ETERNIDADE de sentimentos e de aprendizado. SEJA. E seja MUITO feliz, da maneira que quiser, da maneira que for.

Lindo, lindo, lindo. Metafisiquemos..., seja, e assim exista. TE AMO.
*chorando...*

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

na paz mais incrível que existe - a interior.


Gosto das coisas que chegam assim, desfazendo o planejado, reconhecendo-se ao avesso no premeditado, espantando-se no imprevisível. Tudo aquilo que vai além do visível, do humano e do planejado me fascina. A coincidência da cor da parede com o humor de uma visita, a sisudez de um bom dia desvairado ao sintonizar a rádio que lhe presenteia com a mensagem primordial do recomeço, o amigo que lhe encontra e refaz aquele abraço que até então você necessitava, a TV que desacelera seus pensamentos quando você já está a ponto de explodir.

No chaveamento dos canais me entrego ao Sem Censura, mato a saudade no melhor estilo que a nostalgia me proporciona e encaro, sem delongas, a trilha do meu momento mais precioso – o de acordar amanhã.
Ele, tão lindo. Embalou e deu poesia ao meu cíclico reapaixonar-me, antes de selar meu destino. Sua voz é prelúdio de eu poder me apaixonar a qualquer momento, e sempre poderei. Eu posso agora.
Tenho com ele um passado de alentos inimagináveis, companheiro de CD surrado dentro do carro, em crises de choro por me atrever a ouvir Metade incansavelmente no caminho da minha casa para a faculdade, adentrando a sala com olheiras de sentimentalismo; Culpado, ele, por corroer-me em bandolins de uma dançarina solitária, em lua e flor, em estrelas e, no mais cruel das minhas vísceras, reencontrando-me em sua versão de Sem Fantasia..., com lágrimas e contorcionismo, entre a terceira e a quarta marcha's', sabendo que sempre não é todo dia.

Minha misantropia sempre reconheceu o seu timbre - e ai como eu amo o seu grisalho -, mãos que dedilham as cordas do violão e, veja só, por acaso pegaram-me no colo mais uma vez. A partir de então posso morrer e nascer o quanto eu quiser, o sonho de agora, e não de outra hora.
Preciso dizer que nesse momento eu choro um mundo inteiro?

zu leben - zu lernen


Vida que jamais perece, contínua máquina rotatória que gira, gira, gira, (mas não na redundância das palavras...), vida que jamais se deixa paralisar por qualquer circunstância. Vida boa que tarda a se entristecer, mestra de tantos mortais, dá-me mais um dia de aprendizado na felicidade. Vida de dicotomias, vida que me guarda. Ciclo de encontros e despedidas, de idas e vindas, de partidas e regressos. É real e é de viés e, como bem sabemos de tudo aquilo que vivenciamos - existir, problematizar, resolver, respirar fundo para o próximo batente, acordar e dormir: similar à Hidra de Lerna, cortada uma cabeça aparecem outras cem...

"E por fugir ao contrário, sinto-me duas vezes mais veloz", diria Chico Buarque.

sábado, 23 de julho de 2011

Never clip my wings

Se tenho o direito ao choro, então eu choro. É o direito que me dou ao passar a ser fã de alguém. Choro como quem perde alguém que embalou meus ouvidos e pensamentos nas situações mais adversas. Choro, e com vontade, como se em algum momento eu me sentisse no direito de, como fã, tê-la como alguém que conheço de tão perto. Foi quem embalou minhas mudanças de espírito e deu vida aos meus sentimentos em inúmeras situações. Fez companhia, permitiu que a conhecesse em suas fraquezas.

Deixemos de lado todo esse julgamento em torno de seus deslizes nas drogas,dispensemos todas as pessoas toscas com suas piadinhas de mau gosto. Paremos um pouco para pensar no quão importante ela foi para a NOSSA época, em como pudemos conhecer alguém tão GENIAL à medida que VIVEMOS, e não nos heróis do passado. Ela deixará certamente um riquíssimo tesouro aos futuros, digna de ser lembrada mais por sua obra do que por sua fraqueza, à medida que o tempo passe. Deixemos finalmente uma alma encontrar seu descanso, e insisto que busquemos fazer isso, algo tão mais difícil do que simplesmente julgar, como inevitavelmente fazemos. A solidão possui diversas facetas, eu bem sei. Sofrer é uma das mais difíceis tarefas que devemos cumprir nessa vida. Difícil mais ainda por trazer consigo embutida a incompreensão dos outros.

Ela, excêntrica. Mais uma pessoa de carne e osso que, envolta em suas particularidades, conseguiu transcender o comum e revolucionou nosso conhecimento sobre a boa música. Uma pessoa linda de talento absurdo, em efêmero tempo de existência, nos prova que é maior do que a vida aquilo que deixamos aos outros. Se foram precisos 27 anos apenas para que sua luz chegasse a nós, que eles sejam admirados, então. Never clip my wings. "Nunca amarre as minhas asas", já dizia a sua tatuagem. Deixem-na voar.

O “nunca mais” dói, apunhala e arde no coração de quem a admirava como eu. O “nunca mais” é o limite do desespero, é a angústia, a carência, o ser órfã de sentimentos. É o adeus. O silêncio. O vazio do replay.


segunda-feira, 18 de julho de 2011

discurso de alento

Leva,

Leva minha alma

Leve e pesada

Doendo em alvitres

Trancada nas horas

- passadas

Em que já não se vive.

Leva

Para alguém que não doa...

Para as horas à toa

Que não seja aqui,

Que não volte de lá

Que suporte a lembrança,

Leve.

Traga

Mais um último trago

Do que já não me habita

E que – sin embargo

Ressuscita.